Fashion Viagem

Vivendo em Paris: modes de voir, modes de vivre

17/10/2011
Pra gente começar a semana sonhando, suspirando e aprendendo coisas novas sobre o mundo da moda, convidei a Dani Hinerasky para escrever um post especialíssimo. Ela está morando em Paris, onde realiza uma parte da pesquisa do seu Doutorado em Comunicação – e o assunto é nada menos do que blogs de streetstyle. Estuda na Sorbonne Paris V, sob orientação do professor Michel Maffesoli, e na última Paris Fashion Week trabalhou como fotógrafa e repórter freelancer para o Uol Moda. Durante uma pausa nas suas investigações sobre como os blogs de moda de rua estão reescrevendo as dinâmicas para as marcas e para o jornalismo, a Dani mandou esse post, muito gostoso de ler. Confiram!

“Depois de quatro meses e meio em Paris, aceitei o convite da sweetest blogueira do Brasil e vou contar sobre como é morar numa cidade turística e experimentar um pouco esse “monde de la mode”.  Algumas histórias eu já compartilhei no Retalhos, mas aqui vão minhas avaliações bem pessoais do cotidiano francês e dos clichés. Voilà!

*a Dani pronta para entrar no desfile da Chanel

 => Bonjour, Monsieur.

A primeira coisa que aprendi foi a cumprimentar as pessoas, a dizer “bom dia” (ou “bonsoir” depois que já escureceu). Não se trata de simples costume, mas de um traquejo sócio-cultral que não só demonstra educação (ora, não se chega-chegando em alguém, interrompendo…), mas delimita um espaço entre as pessoas, o mínimo de confiança e tempo necessários para se estabelecer um diálogo. É a “politesse”, um distanciamento em respeito ao outro. Em qualquer lugar, a qualquer hora: “bonjour, madame ou monsieur”, e então a gente inicia uma conversa.

=> “Il faut oser parler”

Mas como iniciar uma conversa depois do “bonjour”? Como superar as dificuldades do sotaque, não travar a língua? Confesso que fiquei mu-da muitos dias. A maioria dos franceses não têm paciência (claro que alguns mais legais tiveram!) assim que percebem que tu é estrangeiro e, já começam falando (ou sugerindo) o inglês, sure. Eu insisto no francês, fico vermelha, erro. Desistia às vezes, claro.

Mas depois desse tempo aqui, e de uma amiga de mais de 80 anos que fiz num Café no 5ème (bairro da Sorbonne), acho que aprendi a lição. A Anne-Marie Mercier me disse uma frase que jamais vou esquecer: “Il faut oser parler” – É preciso ousar falar para aprender.  Serve para aprender francês e para muitas coisas na vida.  A gente deve ousar: falar, aprender, sonhar, ir adiante! Né?!

=> Savoir-vivre

Morar em Paris é muito diferente do que tirar férias aqui. Se você vier (ou já veio) como turista, vai ver, sim, como a cidade é “la plus belle”, fácil de andar, cara, e lotada de cafés e restaurantes. Mas tem muito mais a se saber sobre Paris e os parisienses do que a Torre Eiffel, o foie gras e os queijos e o mau-humor dos garçons ou das pessoas em geral (que embora tão comentado, existe, sim).

Olha, não conheci outro lugar em que as pessoas aproveitam tão bem o dia e que fazem fazer valer a expressão “savoir-vivre” (saber-viver). Ela traduz muito a vida dos nativos, que contamina os turistas e por estes é contaminada também.  Sabe, quando podem, eles vivem bem as horas de lazer. Eles curtem seus hábitos. Por exemplo: aproveitar qualquer hora livre nos parques, no sol (quando tem) ou nos cafés e restaurantes – fumando e bebendo drinks (ou rosé ou café, claro).

 

E o mais interessante, tu pode olhar para o lado que NINGUÉM vai estar te observando. Porque cada um está curtindo onde e com quem está. C’est cool!

Outro aspecto desse jeito genuíno de bem-viver é a destreza de fazer as refeições e/ou lanchar em qualquer lugar e a qualquer hora do dia. Ninguém repara se você abrir sua mochila e tirar sua baguette ou marmita, seja na Place des Vosges ou à beira do Sena (os europeus em geral fazem isso). Mas aqui é na-tu-ral.

=> la mode, la mode

Além de ser o berço da moda e a cidade onde ocorrem as “fashion weeks” mais consagradas do mundo, aqui é uma aula de moda e comportamento todos os dias. As ruas, as vitrines das grandes maisons (Chanel, Valentino, Dior, sim, nossos sonhos!), e as oportunidades mil, como ir em uma exposição da área (sempre tem alguma) ou todas as outras, que ajudam qualquer um a formar um senso estético.

Mas é nas ruas que a gente percebe a autenticidade das parisienses, o tal “je ne se quoi” (não sei o quê”), o estilo único das francesas, que a meu ver é resultado da cultura de moda já consolidada e vivenciada (o post sobre o jeitinho das francesas fica para a próxima, né). E embora pareça quase sempre que estou num editorial de moda, não é porque todo mundo é bem vestido ou com roupas de marca. Longe disso.

O que eu percebo é que as pessoas são autênticas (falei sobre isso aqui), elas vestem o que querem, como se sentem bem. A maioria das mulheres vestem peças básicas, clássicas e discretas. Fogem do exagero, do excesso, do brilho (e dos tênis – a nao ser turistas, quase nao vejos. Nem lojas para vendê-los!). O que é muito diferente do nosso “sex appeal”.

Claro, o gosto se desenvolve desde cedo. As crianças de 3, 4 ANOS!! andam de “foulards” e lenços (até os meninos) nas ruas… é tão fofo. Dá para ver que aqui se aprende a importância das roupas na nossa identidade.

 Mas o “monde de la mode” vai além: as fashion weeks movimentam vários pontos da cidade, com de-ze-nas de desfiles. Eu pude acompanhar duas delas desde que cheguei: a de Haute-couture (alta costura), que foi no início de julho, e a de Prêt-à-Porter, que aconteceu há pouco (27/09 a 05/10).

Como vim para cá para fazer minha pesquisa sobre blogs de street-style e também trabalhei como reporter Uol Estilo Moda eu fiquei na porta dos desfiles registrando a movimentação.  Mas tive a oportunidade de ver algumas apresentações-de-sonho, como o desfile Chanel (alta-costura) e até nosso brasileiro Pedro Lourenço nesta última edição, dia 29/09.

 

O que eu fiquei sabendo e algumas coisas que eu já sabia sobre as fashion weeks?

** Como no Brasil, ou em qualquer fashion-week, o público é seleto e reduzido (exceto Chanel, que faz o maior desfile, com uma primeira fila com centenas de pessoas no Grand Palais): só entram convidadas/os (clientes, compradores, editores e repórteres consagrados), o que contribui para o estigma de exclusividade da moda.

 ** Algumas marcas, porém, já deixam a plaquinha de “STANDING”, caso os lugares da platéia não sejam completos pelos convidados. Aí, os apaixonados e curiosos de plantão entram. Mas essa fila também é normalmente enorme e disputada pelos anônimos.

** Embora os desfiles aconteçam na mesma semana, as marcas fazem eventos independentes, pela cidade inteira (galerias, hotéis de luxo, no Jardin de Tuileries e até no Grand Palais), e não há um local de encontro dos fashionistas a não ser a porta dos desfiles.

 ** O que mais existe em frente a um desfile são fotógrafos: profissionais e amadores (e “turistas-piolho”). Há os que estão trabalhando para os veículos, que não têm credencial, e ficaram só para fotos de street-fashion, como era o meu caso nesta última edição para o Uol Moda, há os blogueiros-profi, mas há também dezenas (sim!) de curiosos com câmera na mão, que estão ali para fotografar modas, modismos, exageros e celebridades entrando ou saindo dos desfiles. É um de-ses-pe-ro!!!

 ** Conheci atores de Hollywood e gente do “showbiz” porque quando se forma um bolo de “fotografantes”  se trata de alguém conhecido.

Porque qualquer um de nós pode produzir imagem e conteúdo para publicar, a moda e a moda de rua na web viraram febre na última década. Os blogs se popularizaram, (o blog Sweetest por exemplo), o meu, o seu, a gente vive isso… Mas em particular na última Paris Prêt-à-porter printemps-été 2012 vi esse cenário  acontecendo, “lotado” de fotografantes e bloggers. Conheci meninas que viajaram de outros países (Suécia, Itália, Suíça, Inglaterra…) para estar ali. Ou para conseguir uma informação, ou a melhor foto ou para, quem sabe, ser fotografada?

Sim, porque todas as pessoas – dos convidados aos “fashion-papparazzi”- se vestem de uma forma muito original, exuberante. Alguns diriam, aí no Brasil, extravagante ou exagerada.

 

No fim, é fácil ver que todo mundo está querendo compartilhar alguma coisa. Falar e Ouvir. Fotografar e ser fotografado. E isso faz parte do movimento do mundo de hoje. Tinha muito mais que grifes ou diferentes jeitos de vestir. Vi pessoas e uma ânsia de ver, de ser visto, de (se)mostrar, de fotografar, de registrar – o que não é novo, mas que está saturado.

O mundo pode ter muitos problemas mais urgentes, mas esses estilos ou jeitos carregam um dado importante, uma fala: “queremos visibilidade, queremos mostrar algo, ou temos algo a mostrar”.E nossas roupas são (ou tem sido) o suporte para este grito. Não é mesmo?

“Merci” pela chance ocupar este espaço, Paula. Je vous embrasse,

Dani Hinerasky.”

PS: Que delícia esse post, me senti de volta em Paris. Aproveita muito aí! 😉

25 amaram.

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15 Comentários

  • Responder candida 17/10/2011 at 1:55 pm

    Adorei o post,por que esse povo ….sofre de mau – humor? bjo

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 17/10/2011 at 2:57 pm

      Acho que faz parte do charme francês…rsrsrs
      Beijo,

  • Responder Adeline Sales 17/10/2011 at 2:55 pm

    Morry ao saber que a Dani é orientada pelo Maffesoli!
    Tenho lido tantos artigos dele e sobre ele… e agora ainda me deparo com esse post de uma orientanda dele?!!! Isso é muito cabalístico!!!

    AMEI!

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 17/10/2011 at 2:57 pm

      Um bapho, né?
      Dani rocks!

  • Responder Daniela Hinerasky 17/10/2011 at 3:19 pm

    Que honra este post aqui no blogs!
    Gurias… acho que o turismo também contribui para um pequeno mau-humor. Mas oh, é mito também, viu? Nao são todos, nem em todos os lugares.
    Bom, se quiserem podem me contatar. Tem o caminho já! beijos.

  • Responder ttizi veras 17/10/2011 at 3:20 pm

    TRÈS CHIC, Paula tem que ter estes posts sempre. Material maravilhoso, fotos lindas , c
    olaboradora de primeira, parabéns.

  • Responder Maria Teresa Weidlich 17/10/2011 at 4:02 pm

    Eu morri também ao saber que e a Dani é orientanda do Mafessoli!
    Tive as mesmas impressões com relação à Paris no que diz respeito as pessoas… Mas a moda, especialmente a moda, amei especialmente esta parte do post! Muito dinâmica, um tanto crítica, deixa algo nas entrelinhas… demais!

  • Responder Luiz Fleig 17/10/2011 at 9:39 pm

    Eu acredito que o “mau-homor” frances deve-se, muito, ao fato deles viverem na cidade mais tuística do mundo. Fato esse que implica conviver com turistas que nao ligam e nao respeitam costumes, regras sociais, cultura em geral… que acreditam que seu dinheiro lhes da liberdade de fazerem e agirem como bem entendem.

    Os frances em especial têm uma conduta social muito particular e rígida. Em relação a etiqueta, ao respeito ao espaço público e ao direito do próximo, ao modo de se vestir, etc.

    Ja cansei de ver cenas em Paris de turistas, principalmente brasileiros, russos… “novos ricos”, que acreditam que seu dineiro e o que basta e nada mais, em lugares muito tradicionais e chiques, se comportando de forma inadequada e sendo repreendidos pro locais, ate mesmo sendo mandados embora!

    Imagina morar em um lugar onde todos querem tanto ir mas nao se dao ao trabalho de, pelo menos, aprender e respeitar a cultura e a forma de vida local? Tudo bem que o turismo promove vantagens econômicas, mas acredito que os turistas deviam repensar um pouco sua postura em relação a isso.

  • Responder Milis 17/10/2011 at 9:56 pm

    Adorei o post! Compartilho de algumas opiniões, hehehe, como a falta de educação de muitos franceses, a falta de paciência com toda e qualquer língua que não seja o francês, mas, principalmente, como as francesas estão sempre lindas e maravilhosas usando apenas uma roupinha básica… Mas é bem isso mesmo, autenticidade, dá o brilho especial no look!
    Beijinhos!

  • Responder Juliana 17/10/2011 at 10:32 pm

    Estive lá em abril 2011, ameei e quero voltar p ficar mais tempo p apreciar mais a cultura francesa, conheci uma surda linda francesa…ela me ensinou tantas coisas boas, os franceses são mto relax toma vinho e come banquete na rua, na praça, me impressionava c a simplicidade deles.
    Bon nuit!!

  • Responder Carmen Vasques 18/10/2011 at 3:03 am

    Amei poder partilhar de tantos comentários de um lugar tão lindo. E descrito de maneira tão simples (e como sempre o menos é mais) achei encantador. Mesmo que sejam mal-humorados, temos que admitir:- são únicos. Agradecida pelas ilustrações e descrições, me senti junto com você.

  • Responder Luciana 18/10/2011 at 10:04 am

    Parabéns pelo post, realmente encantador!
    Paris e os franceses são fascinantes, a bagagem cultural é vasta e possuem um jeito todo especial de viver, de apreciar a culinária, a moda, as artes… Busco constantemente inspiração neste estilo tão simples e ao mesmo tempo tão cheio de informação, um dia chego lá!

  • Responder Daniela Hinerasky 18/10/2011 at 10:48 am

    Obrigada por esses comentários lindos!
    Vale a pena vir a Paris mesmo e conhecer os frances para além dos clichês. Escrevi essas primeiras coisas, a pedido da Paula, mas há muitas outras sobre o jeito de morar, de comer e de viver deles. Já tem algo no meu blog, mas vou postar mais! Visitem também!
    um beijo! Dani! <3

  • Responder manuela 24/10/2011 at 2:46 pm

    delícia mesmo o post! morei em paris por um ano e meio e sou francófila de carteirinha, então vou arriscar um comentário:
    não posso concordar mais quando daniela escreve que ha uma grande diferença entre conhecer a cidade como turista e como habitante. paris não é considerada a mais bonita do mundo à toa nem inspira tanta gente sem motivo, mas ta longe de ser perfeita e pode sim causar grandes decepções. mas sou daquelas que acha que às vezes basta apenas dar uma chance pra que ela nos mostre seu outro lado, não o dos monumentos inesquecíveis e das paisagens de tirar o fôlego, e sim o da art de vivre (mais que o savoir, na minha opinião), de tentar apreciar cada minima coisa do dia-a-dia, de descobrir a beleza nos detalhes e, se por acaso eles não tiverem nenhuma, inventar, decorar – que é o tal do je ne sais quoi! rs sei que vou soar babona e bem exagerada, mas é que no caso de paris, só tem uma solução: il faut oser aimer!

    • Responder Marinete 27/11/2011 at 3:00 pm

      Manuela,

      Ótimo comentário e o “il faut oser aimer!” foi excelente. O post da Dani me fez sentir saudades, mas a Paris que conheço e amo é a que você descreveu. É acordar tomar meu café e ir para o Jardin du Luxembourg, ficar algumas horas sentada e saborear a vida e me perder em meus pensamentos ou mesmo andar pelas ruas sem destino, já que assim cada esquina passa a ser uma nova descoberta. Visitar o Louvre sem pressa devorando suas coleções. Pegar o TGV ir para uma cidade próxima passar o dia e voltar.
      Não sou babona, mas apenas segui a terceira lei de Newton “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade” – Deixe que Paris mostre o seu outro lado gentil, educado, prestativo e ouso dizer hospitaleiro e vocês também vão se apaixonar por ela e por mais louco que possa parecer você passa a se sentir amada como se Paris também fosse apaixonada por você.

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