Myself

Carta para a minha vó nos seus 80 anos

15/12/2015

Dia 5 de dezembro peguei o Pikachu pra passear cedo de manhã, e ao descer do elevador abri a caixa de correspondência. Esperava encontrar apenas contas, como sempre, mas naquele dia havia um envelope laranja grande lá dentro. Abri curiosa. Me deparei com um “Para Paula Pfeifer Moreira” e quando vi a letra, minhas pernas ficaram frouxas. Uma carta escrita à mão pela minha vó <3

Nem todas as pessoas têm a sorte de construir um relacionamento profundo e bonito com os seus avós, mas essa sorte eu tive – e ainda tenho. Desde pequenininha fui louca pela minha Tereca e mesmo hoje é difícil encontrar palavras para explicar meu sentimento por ela. Uma mistura de vó, mãe, pai, amiga, porto seguro, tudo junto e misturado, muitas vezes com confusão de papéis. E na carta minha periquita contou que lê os meus blogs todos os dias. Por isso, esse post é uma surpresa para ela, que completa 80 anos dia 28/12/2015.

Querida Tereca,

Agora que sei que tu lês as bobagens que eu escrevo, fiquei com mais vontade de escrever. Me peguei lembrando da minha infância e do pavor que eu sentia ao pensar que tu podias morrer. Esse pânico me perseguia… Quantas vezes fui dormir rezando e pedindo que de jeito nenhum isso acontecesse, chegava a ter falta de ar imaginando essas coisas. E isso aos 8, aos 18, aos 28, aos 34 anos…Vejo que disperdicei muito tempo com esse medo bobo, já que tenho a sorte de te ter na minha vida desde que nasci e daqui uns dias tu completas 80 anos.

Queria compartilhar contigo algumas coisas que me ensinastes…

Me ensinastes a ser resiliente. Contigo aprendi que se a rocha é firme as tempestades passam. Passamos por poucas e boas juntas, não? Sobrevivemos, mas eu gostaria que nossas vidas tivessem mais momentos felizes, divertidos e memoráveis do que tiveram. Me dói pensar que deveríamos ter aproveitado mais, justo agora que estou a tantos milhares de quilômetros de distância.

Me ensinastes a me distanciar do sofrimento. Esse teu talento eu trago comigo desde sempre. Parece que nós duas temos o poder de atravessar o sofrimento de um jeito mais digno, mais observador, mais retraído do que as outras pessoas com as quais convivemos. Sofremos caladas e às vezes flutuamos por cima da dor. Difícil dizer se isso é bom ou ruim. Mas aprendi contigo a guardar as coisas e não ser uma estourada impulsiva que depois pena para consertar tudo o que quebrou. E te agradeço por isso.

Me ensinastes a cuidar da minha família. Por mais cansativo e sacrificante que seja. Somos poucos e não temos grandes meios, mas dentro da nossa capacidade fazemos das tripas coração se preciso for. Obrigada por ter me ensinado o que significa fazer parte de uma família dentro de toda a confusão que foi causada pela minha chegada repentina nesse mundo.

Me ensinastes o valor da lealdade. Quantos segredos uma da outra nós guardamos até hoje, hein? És a única pessoa nesse mundo que nunca me decepcionou, traiu ou me fez derramar uma lágrima sequer. Nós duas NUNCA brigamos, discutimos ou ficamos um dia que fosse de mal. Obrigada pela sensação maravilhosa de saber que existe alguém para quem eu posso contar qualquer coisa ou dividir qualquer sentimento sem ser julgada e com tranquilidade e paz de espírito.

Me ensinastes a beleza das memórias. Quantas tardes passamos contigo contando histórias tuas e do vô, me mostrando as fotos das viagens de vocês, as cartas de amor que trocavam, teus vestidos de festa, teus sapatos de baile…

Me ensinastes a não ferir as pessoas. Essa é boa e ruim ao mesmo tempo – muitas vezes eu acabo ferindo a mim mesma pelo receio de não ferir os outros. Mas venho tentando melhorar.

Me ensinastes a ser humilde. Nunca te vi se gabando de nada para ninguém, nunca te vi te colocando no papel de ‘heroína’ (e tu certamente poderias!) e nunca te vi alardeando teus feitos aos quatro ventos.

Me ensinastes a escutar. Tu és a única pessoa que eu conheço que escuta o outro quando ele quer falar, e contigo aprendi que às vezes é só isso que as pessoas precisam: alguém que escute.

Me ensinastes que a infância é a melhor parte da vida. Contigo tomei banho de chuva dando risada, fiz bolo de aniversário para as minhas bonecas, brinquei de príncipe e princesa, assisti novelas, dividi livros, acreditei no coelho da Páscoa, esperei o Papai Noel, subi em árvores, comi canudinhos de creme na Copacabana, tomei Cyrilinha no calçadão, ganhei presente de Dia da Criança até os 15 anos e nunca tive meus aniversários esquecidos. Obrigada, vó.

Me ensinastes que o amor está acima de todas as coisas. Tu és a prova viva de que o perdão move o mundo e nos permite seguir em frente. Contigo aprendi que o amor por que sentimos por algumas pessoas é maior e mais poderoso do que qualquer desentendimento, briga ou loucura.

Me ensinastes a ter fé. Lembra quando íamos rezar lá na Medianeira ou levar flores no túmulo do vô? Lembra quando te contei que toda vez que eu rezava concentrada vinha uma moça de branco e se sentava no pé da minha cama e ficava conversando comigo até eu dormir? Lembra da gente no túmulo dos pastorinhos em Fátima? Lembra de tu me dizendo para rezar sempre com fé para a Nossa Senhora que ela iria me ajudar? Acabei não virando uma pessoa religiosa, mas minha fé é enorme. Obrigada por ter me ensinado a fechar os olhos e conversar com meu anjo da guarda. 

Toda vez que volto de Santa Maria tu ficas me esperando num cantinho da casa e me dá um abraço apertado e tímido, com os olhos cheios d’água, faz o sinal da cruz na minha testa e me manda ficar com Deus. Mal sabes que estás comigo o tempo todo e que és a pessoa mais bonita e com o coração mais cheio de bondade que eu conheço. Converso com todas as senhorinhas que encontro em Copacabana só pra tentar matar um pouco da saudade que sinto de ti e sempre que posso refaço aquele trajeto que nós duas fizemos junto com o Pikachu num passeio e quando passo pelo banquinho no qual ficamos horas sentadas conversando sinto uma pontada no coração e choro baixinho. Te busco nas Três Marias no céu todas as noites e te mando um abraço de urso pelas estrelas. Obrigada por fazer de mim a pessoa que eu sou e obrigada por existir na minha vida. Obrigada por estar cuidando da mãe. Te amo desesperadamente.”

124 amaram.

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12 Comentários

  • Responder Glorinha 15/12/2015 at 12:39 pm

    No “Querida Tereca” já tava chorando rs pq eu sou a estourada impulsiva rs snif rs….
    Toda saúde do mundo para sua avó, infinitas bênçãos, que vocês possam desfrutar ao máximo juntas.
    Amor e Abraço gordinho no seu coração
    Glorinha

  • Responder Ines Martins 15/12/2015 at 4:36 pm

    Ai, chorei… <3

  • Responder Cybele Costa 15/12/2015 at 7:56 pm

    Chorei de saudades da minha, sorri de felicidade por vcs terem uma a outra! 😍

  • Responder Victoria 15/12/2015 at 8:02 pm

    Que lindo, Paula!
    Beijo imenso

  • Responder Marcela 16/12/2015 at 12:24 am

    Não consegui ler o post. Comecei a chorar no primeiro parágrafo, no medo de morrer… Perdi o avô que era essa mistura de pai, irmão, herói… A ferida não dói enquanto você não lembrar dela, mas quando você lembra é como se tivesse acabado de abri-la.
    Cuida bem da tua avó. Espero um dia conseguir ter a força necessária para escrever uma carta para o meu, ainda que eu saiba que ele não vai ler.

  • Responder Carol 16/12/2015 at 10:56 am

    Como não chorar com essas palavras! É muito amor! Parabéns pra essa querida…que Deus continue iluminando o caminho da tua vozinha. Beijos no coração das duas 🙂

  • Responder talita 16/12/2015 at 1:31 pm

    lindo texto! chorei 🙂

  • Responder Jordana Freire 16/12/2015 at 1:51 pm

    Aiii perua, que carta mais linda.
    Com certeza a carta escrita pela Terequinha é mais emocionante ainda.
    Vocês são lindas.
    Cada vez que vejo a Tereca tenho vontade de abraçar ela e levar pra casa!

    Um beijo em vocês duas.

    Dia 28 quero estar nessa comemoração!

  • Responder Lilian 18/12/2015 at 4:50 pm

    Coisamais linda e que amor puro e forte. Confesso que chorei com seu texto. Como sou apaixonada pelo seu blog.
    Felicidades e muita saúde para a sua linda e doce Tereca.

  • Responder Janise 20/12/2015 at 8:09 pm

    Paulinha, tu sabes mexer com a sensibilidade de todos. Eu imagino tua vó lendo esta declaração de amor e quantas lágrimas rolarão… Amo tua sensibilidade. Um forte e carinhoso abraço.

  • Responder Nana 29/12/2015 at 2:04 pm

    Deve ser muito bom ter contato tão próximo com os avós… infelizmente, não tive isso.
    A minha retrospectiva vai ao ar no dia 31! Feliz ano novo e q Deus te abençoe!
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://procurandoamigosvirtuais.blogspot.com.br

  • Responder Nina Ponte 18/01/2016 at 3:43 pm

    Chorei de saudades da minha também! que era uma mãe/vó querida e amada por todos!!!

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