by Paula Pfeifer Myself

Sobre revisitar o passado

17/07/2017

Revisitar o passado é descobrir que você não mora mais lá. A gente se move porque precisa sobreviver, crescer, expandir – mas nessa movimentação o tempo passa. As pessoas que amamos morrem, envelhecem e mudam de um jeito que nos faz não mais alcançá-las. Em alguns casos abençoados, acontece o contrário: a distância e a mudança nos aproximam daqueles que, quando estavam perto, não estavam, de fato, perto.

Demorei um ano e meio para conseguir vir a Santa Maria após a morte da minha mãe. Estar aqui me obriga a revisitar a antiga Paula e olhar meus antigos sonhos, desejos e verdades com olhos totalmente diferentes. A generosidade desse olhar me fez bem, mas a passagem do tempo me dói. Eu não queria ter 35 anos, não queria que minha vó tivesse 82, não queria que todas as pessoas com as quais eu cresci tivessem ido embora do prédio onde morei por 31 anos. Enfrentar esses vazios requer coração de pedra.

Mas o tempo passa e transforma a gente em passado. Transforma nossos sonhos infantis em bobagem. Transforma nossas expectativas em fatalidades tristes. E ainda enfia as memórias no saco das fantasias. Ninguém escapa, tem jeito não.

Eu achava que a vida era imodificável e irredutível, aprendi que não. Pensava que as pessoas que eu amo estariam sempre ao meu lado, aprendi que não. Me imaginava como alguém preso a um papel eterno mesmo que já estivesse cansada de representá-lo, aprendi que nada disso. Romper as amarras e mudar, se atirar no mundo, ter colhões para ir embora, tudo isso me transformou numa pessoa que estou começando a conhecer.

Voltar a Santa Maria foi descobrir que eu sou outra Paula. Saí daqui criança assustada, voltei adulta fluida. Os solavancos e aprendizados da vida nos últimos três anos fizeram mais por mim do que todos os sofrimentos e choros contidos dos últimos 30. Viver é muito diferente de sofrer, sofrer é muito diferente de amar, amar é muito diferente de ter medo. Não sinto falta de quem fui, mas sinto ânsia de entender quem me tornei. Muitas coisas em mim explodiram, me quebrei em mil cacos, chorei rios e ainda vivo – embora tudo tenha complicado tanto, tudo também ficou simples.

Minhas dores silenciosas viraram êxtases, perdi os muros e ganhei as nuvens, perdi o amor de mãe e ganhei o amor próprio que nunca tive, perdi respostas e ganhei perguntas, perdi pavores e ganhei dúvidas, perdi amigos e ganhei amigas, perdi um emprego no qual ficaria a vida toda e ganhei uma vida toda para ficar. Perdi tanto e ganhei tanto. Talvez o encontro verdadeiro comigo mesma tenha sido o maior dos ganhos, a proeza impensável, o presente surpresa.

Rever as fotos dos tempos de felicidade plena dos meus avós, da minha mãe e dos meus tios me faz pensar no quanto quero isso também – e no quanto mereço isso porque eu e meu irmão nunca tivemos esse prazer, e no quanto tenho vontade de vencer por nós dois. Quem sofreu quer revanche, e a felicidade é a única revanche possível. Poder olhar para trás e pensar ‘tudo bem, fazer o que’.

Passado a limpo, passado a ferro ou passado que passou, o passado merece umas revisitadas esporádicas. Sem grandes apegos, sem grandes tristezas, sem  saudades doídas. Revisitar o passado como forma de ser grato pelo presente, de um jeito que nos permita olhar para o que temos e para o que somos com carinho. A verdade é que hoje somos mais e melhores que ontem, mesmo que o ontem tenha sido mais alegre e mais bonito. Mesmo que o coração insista em olhar o passado com olhos de arco-íris, o hoje consegue ser melhor. E ter chegado até aqui já é uma vitória imensa. Para todos nós!

63 amaram.

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3 Comentários

  • Responder Shirley Stamou 17/07/2017 at 2:58 am

    Tão difícil e tão corajoso revisitar o passado. Você é mesmo uma inspiração, Paula!
    Confesso que do meu quero a maior distância possível, embora saiba que só sou eu hoje também pelo que de pior me aconteceu.
    beijos!

  • Responder Rosi 17/07/2017 at 5:06 pm

    que texto lindo! parabéns!

  • Responder Paula 17/07/2017 at 9:54 pm

    Paula, adoro sua escrita!
    Hj arrumei coisas atuais e antigas e tb pensei no passado. Foi bom ter lido esse texto agora…
    Beijos

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