by Paula Pfeifer

Sobre precisar forte

11/12/2016

Ninguém é naturalmente forte, é algo que a gente se torna. Na marra, tomando muito pau da vida, tropeçando pelo caminho incontáveis vezes, colecionando desilusões e juntando os cacos do jeito que dá. Você aprende que ser forte faz com que os outros esperem de você cada vez mais força, nevermind o acontecimento da vez. Você aprende que as mulheres que se fingem de frágeis são, na verdade, muito espertas: elas recebem infinitamente mais atenção e cuidados, enquanto você, amiga fortona, não receberá um telefonema sequer perguntando se precisa de algo. Precisei aprender a ser forte desde muito cedo e hoje, aos 35 anos, na metade do caminho dessa estrada terrena, me pego com vontade de deixar minha fragilidade vir à tona.

Comigo sempre foi tipo assim: “Surda profunda? Tem gente com problema pior!”. “Cresceu sem pai? Acontece!“, “Assédio moral? Deixa de frescura, faz parte!”, “Largou tudo e foi viver um grande amor num lugar novo sem família e sem amigos? Acostuma!”,”Viu a mãe definhar por 9 meses até morrer? Que coisa!”, “Voltou a ouvir depois de 30 anos? Tem que ouvir tudo então!“, “Não sabe o que fazer da vida profissional? Dá seu jeito!“, “Não tem pra quem pedir ajuda? Se vira!“… e por aí vai. Incorporei esse papel desde muito cedo e foi assim que os outros passaram a me ver e é assim que me vêem até hoje. O lado bom? A força verdadeira, naturalmente. O lado ruim é que criar essa casca toda me deixou com feridas e algemas emocionais que nem o meu próprio chumbo dá conta de destruir.

Quando a gente precisa criar uma força descomunal por dentro, a gente cria. Tal qual aquela frase inspiracional cafona do Facebook, você não sabe a força que tem até que sua única alternativa é ser forte. E como criatura com pós doutorado em força extrema, vos digo: cansei. Me deixa ser frágil, pedir socorro, aceitar ajuda, me deixa dizer que não consigo. Acho que esse é o verdadeiro sonho erótico de toda mulher forte: poder, pelo menos vezenquando, ser frágil.

Dia desses, ao sair do hospital após duas semanas, minha vó me manda um WhatsApp assim: “Acho que sou feita de aço!“. Só consegui pensar na sorte que tive de ter sido criada por essa mulher fantástica, que sempre foi meu grande modelo de vida e a única pessoa que conheço que é a personificação da frase ‘Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás!’. Nós, fortonas, podemos estar tremendo na base de pavor e medo por dentro mas, por fora, permanecemos impassíveis e duras, fazendo uso do clássico ‘está tudo bem e não preciso de nada‘. Se isso é bom, não sei. Mas ainda prefiro ser forte com opção de fragilidade do que ser, de fato, frágil. Imagine só precisar construir força na alma a esta altura do campeonato…

55 amaram.

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1 Comentário

  • Responder Priscila von muhlen 12/12/2016 at 6:06 am

    Ms define. Passamos por alguns perrengues parecidos. Mas realmente ninguém dá bola para as fortes. Eles acham que suportamos tudo. Em contrapartida, não acho que as frágeis sejam espertas, pois detesto alguém tendo pena de mim

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