Myself

Sobre perdas, sobre ganhos

07/04/2016

Talvez a minha introspecção e a minha melancolia, companheiras inseparáveis desde que me conheço por gente, tenham me ajudado mais do que poderia imaginar a atravessar esse momento de dor. Porque sempre prestei atenção no lado de dentro, nos detalhes, nas minúcias. Podia não ouvir direito o mundo mas ouvia direitinho os meus sentimentos, em especial aqueles mais complicados.

Sofri muitas perdas nesta vida. Comecei perdendo minha referência de casa e porto seguro, quando minha mãe teve a péssima idéia de seguir meu pai, que se mudou para outro Estado, nos levando junto. Não demorou muito, perdi o pai – e foi então que perdi também a confiança nas pessoas e a inocência da minha infância, pois virei adulta muito cedo, por força dos acontecimentos. Perdi a referência de “eu” quando me vi tendo que dividir tudo o tempo todo – hoje sinto até saudade, mas quando mais nova me doía não ter meu próprio quarto, minha privacidade. Lembro de uma vez em que a mãe encontrou um diário meu no qual eu dizia que iria transformar o escritório em quarto porque não aguentava mais dividir o quarto com ela – chorou tanto, mas tanto. E no meio de tantas perdas, a perda da audição, que me arrebentava por dentro mas que eu não queria comunicar a ninguém para não causar ainda mais dor àqueles que eu amava. Acho que posso dizer que entendo de perdas, sem vitimismo, apenas uma constatação fria. E elas me prepararam para a perda da mãe que, ao mesmo tempo em que abriu um buraco no meu chão, também causou um sentimento de vida, de presença no agora, que eu não conhecia.

Eu perdi, mas também ganhei. Força, principalmente. Mesmo quando acho que vou desabar por completo essa força construída ao longo dos anos volta. E me permite ficar em pé com mais graça que tristeza. Ganhei amigos, ganhei outra família, ganhei a chance de ajudar muitas pessoas e pude exorcizar – muitos dos – meus demônios. E agora ganhei uma perspectiva diferente do momento presente. Tenho convivido com uma leveza estranha, com uma espécie de desapego pacífico que mais parece uma aceitação dessa mudança constante que a correria da rotina só nos permite enxergar quando acontece alguma ruptura muito cruel. Como o fim de um amor, o fim de uma vida, o fim de um ciclo.

Se cada fim é um início, só me resta ficar curiosa a respeito dessa nova fase da vida na qual acabo de entrar. E nem digo à contragosto, porque aceito as coisas que chegam com resiliência. O que farei agora? Não sei. Mas há cinco anos atrás eu também não sabia e sequer imaginaria estar no Rio, casada com a pessoa certa, ouvindo, longe da vó e do Dudo, sem a mãe. A verdade é que essa nossa experiência terrena é muito louca. Essa semana encontrei (numa série de cartas e crônicas do meu avô que surrupiei lá em Santa Maria) um escrito do vô contando que em 1953 ele veio morar no Rio, aos 19 anos, e foi direto para o endereço Siqueira Campos 60, em Copacabana. Detalhe: o prédio de número 60 fica em frente à Sonora, e foi a casa da minha tataravó Emilia Pessoa Veras. Me senti protegida. Circulo e passo a maior parte do meu tempo na rua em que meu avô viveu há 63 anos atrás. Não sei porque, mas de alguma forma isso acalmou o meu coração. Foi como se ele dissesse ‘estou te espiando ali da janela‘. Engraçado que o lugar do meu recomeço tenha sido o mesmo lugar do recomeço dele. Engraçado que nossas vidas tenham sido marcadas pelas mesmas perdas, pelas mesmas dores e pelas mesmas injustiças. Me pergunto se estou aqui para ir mais adiante, mais além do que ele foi, avante nesses desafios doídos – será que a transcendência através das minhas vivências daria algum orgulho ou alívio para ele? Espero que sim e me conforto com isso.

Juntar os cacos, construir um novo vaso de cristal – ainda prefiro os vasos imperfeitos, com cicatrizes visíveis. Sou um deles.

Na balança das perdas e ganhos, tendemos sempre a enxergar mais as perdas. Mas são os ganhos que nos permitem seguir adiante. Como diria o Caio Fernando Abreu: “Em frente ou enfrente. Você me entende?”

118 amaram.

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6 Comentários

  • Responder Isabella Rodrigues 07/04/2016 at 2:09 pm

    Isso mesmo Paula , nossa vida é uma eterna gangorra onde de um lado estão os ganhos e do outro as perdas , cabendo à nós equilibrar esses lados com sabedoria e aprendizado ! Um bjo querida !

  • Responder Laura 07/04/2016 at 3:02 pm

    Que lindo teu texto, ami! Acho que perder alguém que amamos desperta um sentimento de onipotência… a gente sabe que aguenta tudo e sobrevive. Passei por momentos tão tristes com meu pai antes dele falecer que sei que não existe nada que a gente não possa lidar, e isso é uma forma de poder. Beijos!!!

  • Responder Renata 07/04/2016 at 3:32 pm

    De tanto de acompanhar nos dois blogs, me sinto sua amiga. Hj me peguei pensando em vc logo cedo..”Nossa a Paula faz tempo que nao escreve. Ainda deve estar digerindo a perda…” E me deparo com seu texto.Lindo mesmo…nem sei o que falar…A gente cai e levanta e cai de novo e mais uma vez..mas sempre levanta.
    Eu nao acredito em acaso. Não acredito que seus recomeços no mesmo lugar sejam meros acasos num País tão grande. De repente não é a primeira vez que vc está ai. Sei lá..
    Força e grande abraço..

  • Responder Taís Natsumi Seki 07/04/2016 at 8:19 pm

    Lindo post, Paula!!! Dá arrepios saber que você está no mesmo lugar onde seu avô recomeçou! E sim, acredito nos destinos, pode não ser Deus pra quem não acredita, mas com certeza exista uma força maior que nos guia nessa vida.
    Desejo de coração, toda a paz e alegria pra você e sua família, que Deus te dê conforto, que seu avô te conforte, com certeza sua mãe se foi feliz, por vê-la ouvindo, casada e fazendo um bem danado pra nossa galera!
    Sempre estarei na torcida! Bjos! Taís Seki

  • Responder Camila 11/04/2016 at 6:08 pm

    Como eu gostaria que tu escrevesse mais um livro de crônicas. Teus escritos são um alento na alma. Fique com Deus e continua firme e forte que a vida ainda assim é bonita.

  • Responder mary 18/04/2016 at 1:37 pm

    nossa,queria ti falar tanta coisa,sou espirita e acredito que cada pessoa ja traz sua trajetoria de vida o que alguns chama de missao,entao se for mesmo assim acredito que vc esta se saindo muito bem,cada coisa tem um pq,nos acreditamos em vida apos a morte e uma maneira de vc falar rapidinho com sua mae é atraves da oração,acredito que ela esteja em alguma colonia descansando pra logo mais retornar,a vida é assim né?cheio de encontros e desencontros,mas eu tenho certea que vc e ela irao se encontrar em muitas vidas,desculpe …talvez nao goste de eu estar ti falando isso e dessa maneira religiosa,tambem perdi uma pessoa muito importante a alguns anos e ate hoje o vazio é tao grande,a sensação de que nao consigo mais ser feliz completamente,tem dias que acredito que ele vai aparecer,ou vai me mandar alguma mensagem no celular…mas,a vida segue e com vc bem falou ninguem para pra discutir essa dor com a gente né?um abraço bem carinhoso pra vc e farei uma prece pra sua maezinha.

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