by Paula Pfeifer

Sobre as madrastas

23/01/2017

As piores memórias da minha infância estão ligadas a uma madrasta, que entrou na minha vida quando eu tinha sete anos e me ensinou como um adulto pode ser egoísta, mentiroso e ardiloso. E foi assim que tomei pavor eterno e completo da palavra madrasta.

Aliás, que palavrinha horrorosa. Parece que só atrai energia ruim. Não gosto mesmo sequer de pronunciar. Como o destino é algo muito cheio de lições e senso de humor, o grande amor da minha vida veio com um pacote e, dentro dele, havia nada menos do que três serumaninhos. Nunca vou esquecer do dia em que os conheci, um pingos de gente que me olhavam com aquela curiosidade infantil que é ao mesmo tempo fofa e assustadora. Só consegui quebrar o gelo quando contei que tinha um cachorro chamado Pikachu. O mais novo, então com quatro aninhos, me olhou de queixo caído: “Não acredito!” 🙂

Por ter tido essa experiência tão uoh quando criança, eu me sentia muito desconfortável. E por uoh entendam ter tido que lidar com uma madrasta que tirava o sutiã na minha frente e atirava a peça em mim rindo enquanto meu pai dormia, pegava a extensão do telefone quando minha mãe me ligava e depois inventava mentiras nojentas para ele, confiscava as cartas que eu mandava, falava horrores sobre nossa família sem o menor pudor na minha frente (eu era uma CRIANÇA, pqp), lia a minha correspondência, desaparecia com coisas minhas quando eu passava férias lá e fazia o possível e o imaginável para que eu e meu irmão não tivéssemos acesso ao meu pai e, quando estávamos com ele, fazia tudo o que estava ao seu alcance para nos fazer sentir mal e deslocados.

Definitivamente, a gente não precisava ter passado por isso. Mas foi ‘bom’, porque me tornou incapaz de machucar uma criança do jeito como fizeram comigo – dói para sempre. Em especial quando você se torna um adulto e começa a repassar todos os acontecimentos importantes da sua vida.

Tudo tem um lado bom, acreditem. Essas vivências me prepararam para a grande experiência que estava por vir: me tornar madrasta. Uma coisa é você namorar alguém que já tem filhos, outra coisa 100% diferente é você se casar com essa pessoa e entrar de supetão na vida das crianças, ainda mais se você ainda não tem filhos e possui jogo de cintura zero com os pequenos. Apenas dois anos e dois meses após ter me tornado oficialmente uma madrasta é que me sinto confortável para falar sobre este assunto.

Por que? Em primeiro lugar, porque ninguém fala disso. Só fui descobrir que era o maior tabuzão depois de virar uma. Procure qualquer coisa sobre este assunto no Google em português e não encontrará muita coisa que preste – procure em inglês e encontrará zilhões de links bacanas e úteis! Esse silêncio sepulcral nos faz achar que tudo o que pensamos e sentimos é loucura e que nossas dúvidas, inseguranças e medos são ridículos. Quem passa ou já passou por isso sabe bem do que estou falando…

Por muitos anos estive do lado de lá e de repente me vi do lado de cá, mas conhecendo os sentimentos do lado de lá. Que confusão! Aliás, acho que o que melhor define a experiência de qualquer pessoa que faça parte de uma blended family é: confusão de sentimentos.

Leva um tempão até você sentir que a casa é sua e que você não é mera hóspede. Leva um tempão até você conseguir dar a sua cara para o lugar – e o pânico de estar ferindo alguém só por mudar a decoração da casa, quem nunca? São muitos meses até você conseguir dar uma ordem sem se sentir uma vaca por causa disso. Leva um século até você ser reconhecida como um membro efetivo da família. Leva uma vida para alguém, de fato e com sinceridade, se importar com você. São meses até você conseguir fazer as pessoas entenderem que críticas contínuas magoam – você está fazendo o melhor que pode. Leva uma eternidade para não dar bola para cara feia e para não se sentir mal por ser sumariamente ignorado. Leva um tempão até você conseguir verbalizar as coisas que te incomodam muito. Leva mais de ano pra parar de sentir culpa por querer estar a sós com o marido e nunca conseguir, rsrsrs.

Enteados são ótimos professores: nos ensinam sobre paciência, nos ensinam sobre egoísmo, nos ensinam sobre aprender a dividir atenção, tempo, dinheiro, espaço, amor; nos ensinam, acima de tudo, que laços e respeito são construídos todos os dias e não importa se vocês não têm o mesmo sangue. Os meus me ensinam, mais do que pensei que fosse possível, sobre mim mesma. E me ensinaram a amar ainda mais o pai deles, que além de ser um super pai, se desdobra em dez para deixar todos nós felizes.

Um belo dia, quando você menos espera, começam a acontecer coisas que fazem tudo valer a pena. Um dia, antes de entrar no cinema, perguntei aos dois meninos se eles continuariam convivendo comigo caso algo acontecesse (se o pai deles morresse ou a gente se separasse). Confesso que isso era algo delicado pra mim e percebi que vinha lá da minha infância; uma vez que perguntei ao meu pai o que aconteceria se eu fosse morar com ele e ele morresse, e falei que seria expulsa da casa pela fofa. A resposta dos dois foi: “Mas Paula, que pergunta idiota, é óbvio!“. Naquele mesmo dia, o pequeno estava tocando o terror no cinema e eu disse a ele: “Mas guri de Deus, se tu fosse meu filho ia ver uma coisa!”. Resposta: “Mas Paula, eu sou um pouco seu filho!“. Ultimamente ele solta, volta e meia, a frase: “Quando vou ter uma irmãzinha?“. E passa horas discutindo comigo qual vai ser o nome dela, e me diz todo sério quais são os nomes que ele acha lindos, além de me pedir que por favor jamais vista a bebê toda de onça – ‘já basta colocar tope no Pikachu, todo mundo confunde ele com uma menina‘, diz ele.

Se a minha infância não deu lá muito certo agora tenho a chance de tornar a infância dos meus três enteados muito melhor do que a minha. Não importa o quão civilizada é qualquer separação, nenhum filho de pais separados passa por isso incólume. Me sinto muito grata quando olho para eles e penso que temos quase quatro anos de convivência e nunca brigamos, e que eles me receberam com todo carinho e educação que poderiam me dar, mesmo que estivessem tão assustados quanto eu com a mudança de vida. Me sinto abençoada quando penso que, se eu tiver um filho, ele já vai nascer com três irmãos que são pessoas incrivelmente legais! Me sinto feliz quando penso que, daqui a dez anos, teremos muitas histórias nossas para contar e vou poder olhar para eles e pensar que ajudei a criá-los.

O amor é tipo essas plantinhas que nascem no asfalto, não? Quando você menos espera, começa a amar. E quando se descobre amado de volta, o amor fica ainda maior. Termino este post pensando que uma das coisas mais bonitas, nesta história toda, é estar unida a três pessoinhas pelo grande amor que nós quatro sentimos por uma pessoa: o pai deles. E dessa mistura toda nasceu também um sentimento delicado, bonito e diferente do amor de mãe/pai entre nós: somos amigos, somos família e podemos contar uns com os outros. No fim das contas, é isso que importa.

PS: sugestão de site brasileiro muito legal que descobri hoje, Não É A Mamãe.

158 amaram.

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10 Comentários

  • Responder Carla 23/01/2017 at 4:30 pm

    Mas tudo que você escreveu passa pelo papel da mãe dos meninos nisso tudo. Porque se ela quisesse, seus enteados seriam emissários da maldade que ela destila sobre você.
    Quando comecei a namorar meu marido, há 20 anos, a filha do primeiro casamento não me conhecia. A mãe não deixava. Quando ela percebeu que não tinha mais volta, começou a colocar a menina entre eu e o pai. Saíamos juntos, ela me ignorava completamente nos primeiros 30 minutos, nos 30 minutos seguintes reproduzia o discurso de ódio que a mãe ensinou e depois chorava copiosamente ao perceber que eu não me abalava. O pai conversava com ela e assim fomos quebrando esse clima. Desafio superado, conquistei a confiança e dividimos bons momentos. Hoje em dia não posso dizer que somos amigas, mudamos de cidade quando ela tinha 7 anos, mas quando estamos juntas ela é como uma filha, cuida dos irmãos, cuida de mim e somos felizes assim.

  • Responder Renata 23/01/2017 at 7:39 pm

    Me emocionei! Vc é linda, Paulinha, por dentro e por fora! Uma pessoa admirável, que um dia hei de conhecer pessoalmente! 😘

  • Responder Juliana 23/01/2017 at 9:01 pm

    Texto lindo, meus irmãos e eu crescemos c madrasta, meu pai tinha ficado viúvo aos 32 anos c 3 filhos, casou-se 4 anos depois d viúvo c a atual, ela tinha apenas 21 anos e já entrou num casamento c família toda formada, ela muita nova e inexperiente c crianças, aprendeu c dor e amor a nos cuidar. Com nós 3 enchendo a casa ela n quis filhos naturais, já nos considerava delas por natureza, brigávamos e nos amávamos como mãe e filhos mesmo. Minha tia (nossa madrasta não a chamamos d mãe apenas tia por causa da idade d qdo à conhecemos) foi e é a segunda figura de mãe q temos, ela luta por nós 3 como uma leoa, prova disso é q mesmo depois d termos construído vida e família própria ainda corremos a ela pra confidenciar, conselhos e broncas se necessário. Quando alguém à refere para nós como madrasta, meus irmãos e eu ‘corrigimos’ a expressão pois a melhor definição pra nós é Mãedrasta.

    • Responder Paula Pfeifer Moreira 24/01/2017 at 4:39 pm

      Que lindo, Ju! <3

  • Responder Mel Salvi 23/01/2017 at 10:43 pm

    Muito emocionante.

    Só vivi a 1ª parte da história. Da minha mãe ganh I um padrasto logo cedo. Essa palavra morreu e ninguém se atreve a dizer que ele não é meu pai.
    Meu pai biológico se enrolou um pouco. Namorou várias, bastante, casou, separou e casou de novo.

    Diante da minha experiência posso afirmar: vc vai errar, vc vai acertar. Mas o que importa é resp irk e amor. Boa sorte!

    PS: Estou na espera do seu baby. Sem pressão! 😘😜

    • Responder Paula Pfeifer Moreira 24/01/2017 at 4:39 pm

      ahahahaha <3
      sua linda

  • Responder Tatiana Lambert 24/01/2017 at 12:09 am

    Paula, a Bianca mudou o enfoque do blog dela, o “Não é a mamãe”; fico triste em dizer isso, mas ela deixou de ser referência [para mim] como madrasta.

    Eu embarquei no trem da “madrastidade” qdo a pequena tinha 2 anos e meio. Foi tudo muito difícil, complicado aos montes pela mãe da criança e pela minha sogra… Juro por Deus que eu cheguei a desistir da relação, de tanta tramóia… mas o meu hoje marido sempre me deu a segurança necessária para que eu não pulasse fora.

    Minha enteada hoje tem 7 anos, e odeia o termo “madrasta”; ela se refere a mim como “tia”, ou “boadrasta”. Na única vez em que brincou de me chamar de mãe, eu a repreendi com tanta veemência que nunca mais se repetiu.

    Graças a Deus, ela não me pede um irmão ou irmã, e já consegue entender que eu não quero ser mãe. Acho esse mundo tão f*, que procriar não é opção.

    Não sei qual o seu grau de comprometimento com a “causa” (madrastidade); por aqui, a guarda é informalmente compartilhada, o que significa uma semana heavy metal, e outra de casal normal, rsrsrs.

  • Responder Jackie 25/01/2017 at 12:03 am

    Texto lindo! compartilho da mesma opinião no entanto a minha experiência não foi boa. Meu pai que já era ausente, se tornou mais ainda. Por isso se um dia eu vier a me tornar madastra de alguém ou se num futuro um filho vier a viver essa experiência com pais separados acho que vou saber tirar da minha experiência tudo o que não se deve fazer e/ou evitar

    Bjkas

  • Responder Carla 31/01/2017 at 7:29 pm

    Amei o texto. Como uma Boadrastra sei que não é fácil chegar na fase de todos se darem bem, mas vale a pena cada obstáculo. Família é tuuuudo de bom!

  • Responder lucy almeida 04/02/2017 at 11:39 am

    linda, vc é o máximo. da um aperto doce no coração ao ler.
    amei.

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