by Paula Pfeifer

Sobre a morte, o luto e a saudade

10/08/2017

O luto tem etapas inexplicáveis e nos invade de sentimentos confusos, sombrios e, muitas vezes, assustadores.

Dia desses uma amiga querida me mandou mensagem contando que o restaurante dela completava 5 anos de vida, e que ela não podia deixar de lembrar da inauguração, quando eu e minha mãe fomos as primeiras clientes – mal sabe ela que estávamos paradas lá fora no carro há 1 hora esperando abrir. E aí senti uma saudade boa como há muito tempo não sentia. Lembrei da nossa cumplicidade, de como era bom me divertir com ela e do quanto tentávamos fugir do tédio de uma cidade do interior a todo custo.

Meu luto segue e se transforma, sem muitos momentos de desespero, depois com madrugadas em claro chorando rios de tristeza e desatino. Ela não me visita mais tanto nos sonhos e tem dias que parece que toda minha tristeza líquida solidificou em aço. Mas aí basta ver uma amiga dando um abraço na própria mãe ou basta sentar para escrever como agora que o choro brota.

Aprendi que chorar é bom. Muitas e muitas noites peguei – e ainda pego – no sono chorando. Estendo a mão para fora da cama e fico tentando imaginar como seria se ela apertasse a minha mão mais uma vez.

O mais difícil são as substituições. Para seguir vivendo preciso substituir a dor pela calma, a tristeza pelo sorriso, as lembranças ruins pelas boas, a saudade que rasga pela idéia de que talvez um dia a gente se encontre de novo em outro plano. Sonhos antigos por novos sonhos, vozes por lembranças, cheiros por saudade.

Um bom tempo depois da morte comecei a perdoar minha mãe, mas muito mais do que perdoar, veio um entendimento profundo das dores e tristezas que ela teve na vida. Quando nossa mãe é viva, chega a ser besta de tão fácil que é culpá-la por tudo, julgá-la ferozmente, apontar o dedão e ainda por cima jurar que nunca faremos nada parecido. Depois que ela se vai você dá cem passos para trás e observa os acontecimentos do passado de um jeito muito diferente e adulto de um jeito que talvez ela jamais conseguisse. É uma das coisas mais tristes e ao mesmo tempo mais bonitas que já vivi: a transformação do entendimento de uma vida inteira.

A maior saudade me dá quando viajo, porque perdi o encanto pelos registros. Viajar, antes, significava tirar mil fotos por dia e enviar todas a ela, que colocava tudo no Facebook – aprendi da pior maneira que precisava fazer uma curadoria de quais enviar, haha – com mensagens fofas. Tiro um centésimo das fotos que tirava, com um sentimento quase infantil de raiva por isso ter perdido a graça. Gosto de pensar que meus olhos permitem que ela, meu avô e meus bisavós enxerguem o mundo, de alguma forma, através de mim. Gosto de pensar que sou a continuidade. Que minha existência precisa ir além, em vários quesitos, para que a deles tenha valido a pena.

A dor do luto fez de mim uma pessoa com mais compaixão e empatia, com sentidos mais aguçados para várias coisas que antes passavam despercebidas.

Dica de livro sobre a morte

Linguagem acessível num livro que não dá vontade de largar até chegar ao final. Eu ainda não cheguei, porque nem sempre estou na vibe do próximo capítulo. Mas cada vez que pego O Livro do Viver e do Morrer por algumas páginas, me sinto abraçada e em paz. Explica muita coisa e acalma o cérebro, que tem mais dificuldade de assimilar isso tudo do que o coração.

40 amaram.

Você também poderá gostar

Nenhum Comentário

Deixe seu comentário