Amor Myself Pequenos Escritos

Pequenos escritos

29/10/2008

Achei uma série de pequenos escritos antigos meus.

“Não há como esquecer aquela tarde.Uma tarde de chuva, de frio e de fim. A campainha tocou de repente, me fazendo caminhar em direção à porta. Lembro da sua chegada. Apereceu meio molhado, meio sério. Um pouco sinistro. Mas não dei importância, havia acabado de acordar, eram umas duas horas e ainda cambaleava meio zonza pelo apartamento. Você de jeans escuro e blusão de lã cinza-chumbo. Por cima, vestia um casaco preto que eu amava. Sim, fui capaz de amar e amar um simples casaco só pelo fato dele cair bem em você. E me disse para vestir uma calça, que não era possível alguém andar só com a parte de cima do moletom pela casa num frio daqueles, que era por isso que eu vivia doente. Retruquei. “Mas estou de meias, você não vê que estou de meias e não encosto meus pés no chão gelado?”. Você foi caminhando em direção à cozinha e segui atrás, como um cachorrinho buscando o dono. Não, você não era meu dono, era só, digamos, aquele a quem entreguei meu coração. Mas isso não importa, a gente entrega o coração e entrega mais outras coisas preciosas às pessoas, como os sonhos e os segredos, porque quer. Porque temos a ilusão de que alguém cuidará deles melhor que nós. Ninguém nunca me disse que queria essas coisas minhas, coração,sonhos e segredos; você também nunca falou que sentia alguma vontade de possui-las, mas mesmo assim coloquei tudo junto numa caixinha dourada imaginária e lhe enteguei. Num dia em que você dormia ao meu lado, um sono pesado e calmo, fiquei olhando seu rosto e decorando mentalmente o desenho da sua boca. E foi ali, naquele pequeno momento de proximidade, que resolvi que minha caixinha dourada seria sua até quando você não a quisesse mais. Seu jeito de fazer café era delicado, sabia as medidas exatas. Gostava de açúcar e dizia que adoçante era um nojo. “Faz mal. É cancerígeno”. Adorava me repreender por não prestar atenção à técnica. “Você é avoada, vem cá, fique aqui olhando e aprenda como se faz”. Mas nunca senti vontade alguma, precisava aprender um milhão de coisas antes disso. Naquela tarde, nos sentamos frente a frente no chão da sala, uma xícara de café numa mão, um cigarro na outra. Ele sorvia o líquido em pequenos goles e me encarava com um olhar vago e estéril. Eu apenas tragava lentamente meu cigarro e pensava no quanto a vida seria mais fácil se pudéssemos ler a a mente das pessoas nessas horas cruciais. As tragédias e as desgraças são silenciosas. Mas, de alguma forma,perceptíveis. E foi naquele silêncio bruto e constrangedor que entendi. Era o fim. Não o veria nunca mais. Na última tragada daquele cigarro, já sabia que terminaria ali.Mas depois de tantos finais cínicos, de tantas despedidas estarrecedoras e tantas mágoas guardadas, já era hora de dar adeus à fragilidade. Sem choro, sem desespero. Aceitar o fim com doçura. “Nossa história foi bacana, honesta. Quero um final bacana também. Vem cá!” Você foi se aproximando e devagar ficou ao meu lado. Encostei minha cabeça no seu ombro e perguntei quais foram os nossos melhores momentos. “Acho que todos os vinhos que tomamos juntos e nos levaram a conversas extraordinárias”. Foi terrível ouvir aquilo. Juro. Doeu. Rasgou por dentro, feriu, saiu sangue. Mas pensei no quanto seria inútil derramar uma lágrima por alguém que não me enxergava mais com os mesmos olhos. Acho que essa é a pior dor. Saber que voltamos a ser apenas comuns aos olhos de quem nos considerava únicos. “

Escrito em abril de 2006.

PS: o WordPress não me deixa fazer parágrafos direitinho. E isso é ficção, tá?

Seja o primeiro a amar.

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16 Comentários

  • Responder Carol Scheid 29/10/2008 at 2:22 pm

    Paulinha, tu é uma super escritora!! adoooro!
    beijo beijo

    publica mais textos teus.

  • Responder alda 29/10/2008 at 4:30 pm

    caraca Paula! que lindo esse texto, vc. nunca pensou em escrever (se já não escreve) um livro e publicá-lo? pq. vc. têm um dom incrível, sério, de verdade, se vc. publicasse um livro eu compraria.Fiquei viajando na estória e conseguia ver a cena dessas duas pessoas, acho que um bom livro p/ mim é qdo. o autor consegue fazer o leitor criar essas imagens na mente, conseguir viajar na leitura é fantástico!
    bjo grande

  • Responder Lola 29/10/2008 at 5:19 pm

    Paulinha, independente de ser ficção ou não é lindo e eu me arrepiei!

    B E I J O.

  • Responder Ale Londero 29/10/2008 at 5:25 pm

    “Acho que essa é a pior dor. Saber que voltamos a ser apenas comuns aos olhos de quem nos considerava únicos.”
    Certamente é uma das piores dores que possam existir!
    Beijo (tédio no estágio… haiahiaha)

  • Responder Marina 29/10/2008 at 5:26 pm

    “Não, você não era meu dono, era só, digamos, aquele a quem entreguei meu coração. Mas isso não importa, a gente entrega o coração e entrega mais outras coisas preciosas às pessoas, como os sonhos e os segredos, porque quer. Porque temos a ilusão de que alguém cuidará deles melhor que nós. ”

    esse trecho é perfeito porque é exatamente isso que fazemos! vai pra coleção dos trechos que eu gosto! belo texto. tio Caio F ficaria orgulhoso hahaha…
    beijos!!!

  • Responder Marcella M. 29/10/2008 at 5:27 pm

    Parabéns, Paula! Que texto lindo! Concordo com a Alda. beijossss

  • Responder camilaviegas 29/10/2008 at 6:38 pm

    Lindo, Paula! Já ia perguntar se era ficção ou não antes de você editar =)
    Quando você for lançar um livro, tenho certeza que vai vender horrores! Você escreve muito, menina!
    Beijos =**

  • Responder Mariana 29/10/2008 at 6:45 pm

    Oi Paula, adorei seu blog e acabei de ler seu texto, nossa, vc escreve muuuiiitooo, viu?
    Acho que me vi nessa situação (quem não) e passou um “filme” pela minha cabeça…

    Beijo!!!

  • Responder A! 29/10/2008 at 9:04 pm

    Paula,
    então, sobre a cartinha, eles tinham me dado 5 dias uteis para a resposta, mas já passou o prazo…e eu não consigo ir na Receita! eu moro longe, trabalho, como vou fazer pra ir lá? Fica na Paulista se não me engano! Impossible! Tenho mesmo que esperar =(

  • Responder Cacau 29/10/2008 at 11:49 pm

    Lindo, amiga! Poético, forte, dramático, intenso. De tão verdadeiro nos pequenos detalhes, achei até que fosse verídico, quando li no final que não era. Maravilhoso. Que dom!!! Parabéns! Sinceros! Beijocas.

  • Responder Alice Klein 29/10/2008 at 11:57 pm

    Já te disse né Paula, vai pro Jornalismo… de repente Jornalismo Literário!!! Adorei seu textoooo!! Quero mais desse estilo, tá? hehehe
    beijãooo querida!

  • Responder Elo Farah 30/10/2008 at 12:17 pm

    Aii que texto lindo, ficou ótimo! Já pensou em fazer um livro? Juro que ia se dar super bem. Eu compraria.

    Beijão

  • Responder Rita 30/10/2008 at 12:55 pm

    Muitas vezes tentei captar o que me leva a gostar do que alguém escreve ou não. Às vezes é a colocação das palavras, a descrição atípica das cenas ou a verdade contida nas entrelinhas…
    Seu texto, apesar de ter de tudo um pouco, me agrada pela maneira como vc enxerga o mundo, e as coisas, e as pessoas, e os sentimentos. Vc abre isso pra gente com uma incrível facilidade graças a sua personalidade livre e generosa. Parabéns, mais uma vez. E não desperdice o dom de escrever; escreva sempre e cada vez com mais!
    Beijocas

  • Responder Mulher Digital 02/03/2010 at 12:12 pm

    Escrever e lever são duas coisas que podem nos levar a outros mundos.

    Muito fofo o seu texto. Detalhista, delicado e sutil.

    Beijoconas.

  • Responder mayramartins (Mayra Martins) 02/03/2010 at 7:37 pm

    “Acho que essa é a pior dor. Saber que voltamos a ser apenas comuns aos olhos de quem nos considerava únicos” – Mais: http://bit.ly/1o6Se4.

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