by Paula Pfeifer Maternidade

Parto adequado: a minha escolha pela cesárea

07/06/2018

Inevitável começar a pensar no parto assim que você descobre que está grávida. Eu sempre soube que queria uma cesárea, mas assim que comecei a pesquisar sobre o mundo (e o submundo) da gravidez descobri que, em 2018, desejar uma cesárea é quase crime tipificado no Código Penal.

Comecei a achar que precisava me aprofundar mais na pesquisa e assim foi. O primeiro passo foi decidir quem seria a minha obstetra. Dei sorte porque uma amiga de Santa Maria que mora no Rio tinha acabado de ganhar nenê e me indicou a obstetra dela.

Na primeira consulta com a Dra. Andreia Montenegro (ela atende em Ipanema, na Visconde de Pirajá, fone: 2287-2905) ela começou a me explicar melhor sobre o parto normal (natural) e me disse que ao longo da gravidez tinha certeza que essa seria a minha opção.

Confesso que tentei. Li muito, conversei com as pessoas, vi vídeos, fui em eventos de gestantes, ouvi tudo o que a Andreia me dizia nas consultas com atenção, ouvi tudo que meu marido médico falava. Mas lá no fundo, bem no fundo, eu sabia que não queria e que não ia rolar.

Já nem lembro mais em qual semana do fim da gestação descobrimos que o Lucas continuava pélvico, bem sentado, e que não iria encaixar. Aí tomei a decisão de agendar uma cesárea para quando estivesse com 39 semanas e 5 dias, se não me engano. Ele nasceria dia 11 de maio. Porém, na madrugada do dia 6 de maio, ele decidiu que tinha chegado a hora. A bolsa rompeu e fui para o hospital.

A cesárea foi tranquilíssima, lembro de olhar no relógio quando ia começar pra valer e eram 9:50. Às 10:03 eu já estava ouvindo o choro do Lucas na sala. Fiquei: “Mas jááá??”. Não imaginava que seria tão rápido. Não senti nada… Só quando foram me fechar é que senti um super mal estar durante uns 10 minutos, achei que fosse desmaiar, mas passou.

Rapidinho eu estava no quarto, aos poucos as pernas foram voltando, quando pisquei Lucas já estava no peito mamando. Tirando a dor e o pânico de fazer qualquer coisa por causa do corte, não posso reclamar de nada.

Como SEMPRE faço cada vez que me opero, chego em casa me sentindo ótima e exagero. No outro dia já estava na rua indo ao hortifruti, carregando sacola, fazendo tudo o que me foi recomendado que não fizesse. Assim fui durante vários dias, até que comecei a sentir uma dor insana que me fez parar na emergência e ficar urrando durante uma manhã inteira. Só assim, depois desse baita cagaço, é que baixei minha bola e passei a repousar. Antes eu estava despirocada achando que tinha que mostrar serviço pro mundo e dar conta de tudo como se não fosse uma recém-parida. Resumindo: não façam o que eu fiz. Cesariana requer repouso absoluto depois de feita. Não recomendo carregar peso, ir ao mercado, sair caminhando pela rua e todas as outras barbaridades que eu cometi, tentando provar que era Super Woman pós-bebê.

Como a Andreia conversou comigo sobre o parto adequado na nossa última consulta antes do parto e aquilo ficou martelando na minha cabeça, convidei-a para escrever sobre isso para a gente. Por 9 meses as pessoas só me falavam que eu tinha que esquecer de mim e só pensar no bebê, no que era melhor para ele. O que eu queria não importava. Mas algo em mim dizia que essa conta não fechava. O parto é a dois, um momento complicado para o bebê e para a mãe. A mãe também existe. Eu tinha a sensação de ter meus sentimentos e quereres violados cada vez que alguém vinha me fazer discurso sobre a “cesárea de satanás”, sabe? Muito chato.

Minha opção foi pela cesárea e, pela paz, segurança e tranquilidade que essa opção me deu, sinto que não poderia ter feito escolha melhor. Não me senti “menos mãe” nem por um segundo por causa disso. Eu queria meu filho nos braços, com saúde, só isso. O jeito como ele viria ao mundo não me faria sentir mais ou menos mulher, mais ou menos mãe – e confesso que PARA MIM isso tudo soa meio prepotente.

Deixem as mães em paz. Cada uma sabe de si, cada uma sabe até onde aguenta, cada uma sabe como quer parir.  Falam tanto da imposição da cesárea, mas o que eu vivi durante 9 meses foi a imposição do parto normal/natural. Enfim, só compartilho o que vivi/ouvi/senti/li durante esse período. 🙂

 

Relato da minha obstetra

“Como se escreve para o blog de uma escritora?  Acho que demorei quase uma semana imaginando a melhor forma de iniciar. Vamos então relembrar o início de uma relação carinhosa: o Pré-Natal do Lucas!!! 

Conheci Paula através de uma médica especial e muito doce, Letícia Castagna que também pariu comigo. (Sim, nós obstetras amamos este verbo). 

Ter a honra de ser escolhida para estar junto aos pais em um momento tão mágico, transformador e amoroso é algo inexplicável. Vale cada noite em claro, cansaço, responsabilidade. Fazer o que se ama com muito amor sempre. 

Voltando à Paula, desde o início pude ver que tinha uma paciente decidida, informada e que já mostrava de forma muito clara a via de parto desejada: cesariana. Meu  papel de especialista era então orientá-la, entender sua decisão e explicar tudo que poderia ser feito neste acolhimento. 

De acordo com a OMS são 140 milhões nascimentos/ano. Na Europa, 25% são cesarianas. Nos EUA, 32%. E no Brasil, 55% dos partos da rede pública são cesarianas, chegando a 80% na rede privada.

Parto Adequado

Foi então que o Ministério da Saúde criou um modelo de atenção ao parto e nascimento valorizando o parto normal e reduzindo o percentual de cesarianas. Ele se chama Parto Adequado e vem se mostrando eficaz na proposta por ele definida. 

Sim, temos uma epidemia de cesáreas no Brasil. Esta é uma questão multifatorial que passa por várias questões como falta de qualidade nos partos normais, inexistência ao acesso de técnicas de controle paliativas de dor, falta de informações às pacientes e suas famílias e falta de equipe treinada.

O que seria ideal? Ser o menos intervencionista mantendo a segurança.  

Mas afinal o que é Parto Adequado para cada mulher? 

Neste momento precisamos ter a sensibilidade de entender que a paciente tem total autonomia para escolha de sua via de parto. A autonomia pressupõe o direito de escolha que deve ser baseado na informação transmitida de forma transparente, clara e verdadeira por profissionais responsáveis e comprometidos. 

Sim, a gestante tem o DIREITO e COMPETÊNCIA para a escolha. 

E então surge a Cesariana a pedido materno, aceita pelo Conselho Federal de Medicina em gestação maior que 39 semanas para evitar a maior incidência de problemas respiratórios em recém nascidos menores que esta idade gestacional. 

Paula então decidida, com autonomia definida e muito clara de suas convicções escolheu sua vida de parto: quero uma cesariana agendada! 

No dia 06/ 05/18, Lucas, que estava sentado, escolheu seu momento de chegada. Respeitando a decisão de Paula tivemos uma cesariana respeitosa, humanizada, em um ambiente acolhedor com penumbra e música na sala de parto para receber um bebê tão desejado.

O implante coclear da Paula foi mantido durante toda a cirurgia e em 2018 fiz uma cesariana sem utilizar bisturi elétrico. (Obrigada Paula, pois neste momento me lembrei das minhas primeiras cesarianas em 1991 quando não existia bisturi elétrico) ! 

Com isto, a mamãe Paula ouviu cada novo som da Maternidade que chegava de forma arrebatadora na vida dela. 🙂

Pra que serve este relato afinal? 

A melhor forma de nascer é a forma segura. Proporcionar a cada gestante o direito de escolha à via de parto é interceder pela autonomia da grávida com respeito e garantia de dignidade na sua decisão. 

Querida Paula, foi um prazer te acolher e orientar neste momento tão especial. Que os sons da Maternidade, da chegada do Lucas, do choro na madrugada, das manhas e das travessuras se tornem cada vez mais identificados e entendidos por você. 

Com carinho, Andreia Montenegro (uma obstetra apaixonada trazendo crianças apaixonadas para mães apaixonadas há 27 anos!)”

67 amaram.

Você também poderá gostar

7 Comentários

  • Responder Maria Ines Martins Santos 07/06/2018 at 5:31 pm

    Muito lindo! Parabéns pelo filhote!!
    E quem diria, que mundo pequeno! Sou paciente da Dra Andreia desde 2006 ou 2007! Só que me consulto na Barra. Ela é ótima! <3

  • Responder Fer 07/06/2018 at 6:28 pm

    Oi Paula, curto seu blog há muito tempo. Concordo com vc sobre a escolha do parto tem que ser o que te faz sentir melhor. Também optei pela cesária desde do início da minha gravidez há 9 anos atrás e nunca me arrependi e nunca me senti menos mãe. Muita saúde e felicidade pra vc e o Lucas.

  • Responder Bárbara Ferraz 07/06/2018 at 9:23 pm

    Paula, ADOREI o texto, Quando a mulher engravida o povo acha que pode dar opinião em tudo né ? Até quem não tem filho dá palpite. Querendo ou não a mulher é posta numa ” guerra” boa mãe X péssima mãe. cesárea X normal, amamentar X mamadeira, creche X babá, voltar a trabalhar X ficar em casa com o bebê , Dar danoninho ( ou qualquer outra porcaria X alimentação natural .
    Não existe certo e errado e vou te falar uma coisa, nasce uma mãe e nasce a culpa junto. Se você teve toda a informação e mesmo assim optou pela cesárea e seu desejo foi respeitado, ISSO é o que importa. Você nem precisa TER um bebê pra ser boa mãe. Tem gente que adota. Você não precisa nem amamentar pra ser boa mãe. Tem gente que dá mamadeira desde que saiu da maternidade … Pra ser uma boa mãe, bastar amar o filho :). Não entra na onda ” menos mãe”, vai ter muita MUITA gente querendo apontar o dedo para qualquer decisão sua.
    Lembre-se sempre , você é a melhor mãe que pode ser para o Lucas. Esqueça a culpa 🙂
    Gostei muito do relato da médica. Vamos respeitar as decisões das mães. As pessoas são diferentes nos seus desejos e pronto ! Parto respeitoso, seguindo as orientações da OMS após 39 semanas 🙂
    Parabéns novamente pelo Lucas e uma lua de leite para você

  • Responder Elisa 18/06/2018 at 5:36 am

    Bárbara Ferraz já falou tudo que eu queria 🙂
    Parabéns pelo filhote e aproveita bem essa fase RN que é tao intensa.
    Bjs!

  • Responder Ana 18/06/2018 at 3:38 pm

    Parabéns por admitir que escolheu cesárea SIM. Pq a gente só vê as blogueiras e celebridades falando que escolheram pn ou que fizeram cesárea pq não conseguiram o normal na hora (ahaaan). Parece que é vergonhoso vc assumir que sempre quis cesárea.
    E parem de achar que todas que optam por cesárea é por falta de informação. Isso é prepotente pra caramba. Já cansei de ver partos normais de amigas e conhecidas que deram algum tipo de problema, já cesárea nunca vi.

  • Responder Marcela 18/06/2018 at 4:49 pm

    Cara, esse post é MUITO importante. Eu sou formada em Direito, e por puro acaso tive contato recente com vários artigos acadêmicos à respeito da violência obstétrica, que também foi um assunto em alta depois de Kate Middleton ser fotografada pleníssima e pronta pra mover a economia mundial com o filho no braço, poucas horas depois do parto natural. Realmente começou a rolar uma campanha contra a cesárea, e vieram à tona muitos fatos e causos de arrepiar os cabelos de mulheres que foram induzidas à escolha por médicos impacientes ou pouco preparados.
    Isso de tantas pessoas acharem que só o bebê importa, e dane-se a vontade da mãe é algo simplesmente horroroso. Mulher nenhuma deveria ser reduzida a ovo de Páscoa num momento tão importante e sensível da vida. Mas é impressionante como todo mundo tem e quer uma opinião pra gravidez alheia.
    Parabéns pra você, que pesquisou, se consultou e defendeu sua opinião depois de tudo isso. E ainda bem que carregar peso logo depois da cirurgia não te deu nenhum problema maior, porque deus me livre! hahaha

  • Responder Aninha 20/06/2018 at 7:58 pm

    O parto da minha menina optei por fazer utilizando a hipnose para não sentir dores. Foi uma experiência única, recomendo a todos pesquisarem sobre essa modalidade.

  • Deixe seu comentário

    This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.