Quem lê esse blog há tempos sabe que sou completa e perdidamente apaixonada pelos livros do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu. Minha ‘história’ com ele vem da infância, quando encontrei um exemplar de Morangos Mofados em casa – que, aliás, foi arrancado das minhas mãos na hora porque era livro de ‘gente grande’. Quando soube que “Para sempre teu, Caio F” havia sido lançado, saí correndo para comprar – ou melhor, comprei online mesmo! Fiquei tão feliz quando o livro chegou e vi que era enorme, com quase 500 páginas!! Li devagarinho, não queria que acabasse nunca – isso é tão raro de acontecer comigo, não querer chegar ao final de um livro! Tive crises de choro homéricas (pode??) durante a leitora e me identifiquei demais. E senti inveja (branca, of course) da Paula Dip, porque ela foi uma grande amiga e confidente do Caio. Juro por Deus que, se ele fosse vivo, eu moveria montanhas para ser amiga dele, faria o possível e o impossível para que isso acontecesse. Me senti honradíssima quando a Paula aceitou dar essa entrevista para o blog!


Todas as pessoas que são tocadas pela literatura do Caio gostariam de ter conhecido ele. Como foi ter sido amiga íntima de um dos escritores mais sensacionais que esse país já teve?
Quando convivíamos com o Caio,nos anos 70 & 80, não dava ainda para saber que ele seria um ícone literário de nossa geração. A paixão dele pela escrita era muito evidente e estava presente nos contos, romances, peças de teatro que criava e nas cartas que não parava de nos mandar. Era comovente ver a dedicação dele à sua obra. Mas ele também sofria muito: ser escritor implica num processo bastante solitário, e Caio só foi reconhecido muito perto de sua morte. Nunca teve um tostão e nem um amor duradouro, que era o que mais buscava. Mas ele sempre soube que seria famoso (sempre foi meio bruxo) e que não estava escrevendo em vão. Era maravilhoso ser amiga íntima dele, e às vezes também era difícil, como são todas as amizades; mas a gente esteve perto um do outro nos momentos felizes e também nos mais complicados. Ele era um amigo muito especial.
Caio era tão intenso quanto seus livros, na vida real?
Ele era muito intenso tanto quando se apaixonava por pessoas ou coisas, como quando as detestava.E sabia expressar muito bem suas emoções. Nunca deixava de dizer o que sentia.Ele não tinha emoções rasas…ou melhor, às vezes tinha, é claro, uma espécie de ”humor fútil” muito divertido, que era a cara dele, mas mesmo na futilidade e na hora de falar bobagens ele era intenso, e extremamente engraçado. Mas o outro lado da moeda era igualmente intenso: triste, ele era de uma tristeza tocante, dizia que queria morrer, se escondia no quarto, e ficava lá, morgando até melhorar o humor. Caio viveu apenas 47 anos, mas com certeza foram anos muito intensos em todos os sentidos.
Quando idolatramos uma pessoa, só enxergamos suas qualidades. Na tua opinião, qual era o principal defeito dele e porque?
Caio tinha uma sensibilidade muito aguçada, sofria como poucos, e não sabia valorizar a vida enquanto estava vivo. Ele reclamava de tudo: não se gostava, não gostava de Porto Alegre, nem do Rio, nem São Paulo, reclamava até de Londres, Paris. Nenhum lugar estava bom o suficiente para ele. Reclamava dos amores, dos amigos, dos editores, queria sempre mais. Acredito que ele tinha uma insatisfação permanente com a realidade, que está presente na vida de muitos artistas, e resolvia isso criando mundos paralelos em sua literatura. Ou seja, o defeito de Caio para mim, era ter dificuldade de aceitar a realidade da vida, que nem sempre é agradável mesmo. Ele perdia muito tempo com isso. E essa perda de tempo com reclamações e tristezas ficou muito clara para ele mesmo quando se decobriu doente, portador do virus HIV. Quando a gente peguntava se ele se arrependia de alguma coisa, ele dizia: “Me arrependo de ter perdido tempo“.
Porque você acha que ele acabou nunca encontrando um grande e/ou definitivo amor?
Ele mesmo disse, certa vez, que se encontrasse o amor que tanto buscava talvez parasse de escrever. A falta do amor era o que movia a sua literatura. E de fato, em seus textos, essa busca do outro, da paixão, da felicidade, fica muito evidente e torna sua obra universal e perene. O seu maior caso de amor durou 9 meses: ele não conseguia ir muito além disso. Tinha dificuldade de se entregar e também não acreditava na entrega do outro. Era ciumento, inseguro. Questionava tudo, não era feito para as emoções mais banais da vida: não consigo imaginar o Caio casado por 20 anos com a mesma pessoa. Ele gostava de gente, no melhor sentido da palavra, adorava conhecer, procurar, descobrir e inventar pessoas e personagens. Acho que uma pessoa tão criativa e com essa ânsia de infinito tem mesmo uma certa dificuldade de se envolver de forma mais estável com alguém. Mas Caio teve amigos, inúmeros e grandes amigos, para toda a vida, e a amizade, sem dúvida, é uma forma de amor, que deu muito certo na vida dele! Ele era um amigo como poucos.
Qual é a tua lembrança mais querida dele?
Ah, são várias. Ele sabia presentear, mandava flores, escrevia cartas magníficas, guardei tudo o que ele me deu. Mas talvez a lembrança de que gosto mais, foi a de uns dias que passamos juntos numa casa de praia que eu tinha no Guarujá, no litoral de São Paulo. Ele adorarava o mar. Nossa amizade sempre foi mais urbana, de trabalho, de sair à noite, nunca havíamos passado um tempo assim juntos, dividindo a mesma casa. Minha filha era pequena, e estava conosco. Ele era muito discreto, elegante, suave, fácil de se conviver. Fizemos longas caminhadas pela praia, rindo muito, falando mal dos outros (ele adorava isso)e fazendo nossas confidências.Acendemos a lareira à noite, tomamos conhaque, que ele amava. Era Julho, acho. Foram dias inesquecíveis.
Conta pra gente uma das coisas mais bonitas – e sábias – que ele já te disse.
As coisas bonitas e sábias que ele disse a mim e a outros amigos, estão todas no meu livro, PARA SEMPRE TEU, CAIO F. , da editora Record, que acabo de lançar e as pessoas estão gostando de ler. Isso me emociona muito, pois meu livro é uma forma de manter viva a memória dele e da nossa geração. No livro relato com detalhes nossa amizade e faço um perfil afetivo dele. Caio dizia coisas incríveis, sempre, como por exemplo a frase que está no início do último capítulo do livro: “A gente passa a vida inteira achando que é imortal”, ou a frase “Rejeição, sentimento contra-mão”, que não é dele, mas ele dizia sempre. São coisas quase óbvias, mas ele as usava de forma profunda. Sabia brincar com as palavras. Ele também dizia coisas engraçadas, como inventar apelidos para as pessoas, e criar palavras que formavam um verdadeiro léxico particular, tais como “lasanha”, “saia justa”, “naja”, entre outras. Eu adorava quando ele encerrava as frases dizendo : “E tudo e tal…” como se estivesse meio distraído e não tivesse mais nada a acrescentar.



Para participar dessa promo, basta deixar – apenas nos comments deste post – uma resposta para a seguinte pergunta : “O que você gostaria de dizer ao Caio Fernando Abreu, se pudesse?” A autora escolherá a vencedora, que será premiada com um exemplar do livro “Para sempre teu, Caio F“. Aceitaremos inscrições até o dia 23/08!! Participe!