Myself Sweetest Things

O que a doença me ensinou

05/07/2016

A doença me ensinou muitas coisas desde que ela entrou na minha vida de um jeito avassalador e mal educado – como se coisa ruim pedisse licença. Às vezes a doença vira cura. Às vezes, vira morte. Perdi minha mãe e minha sogra num intervalo de três meses e meio, o que me fez conhecer dois sentimentos distintos: raiva da vida e profunda alegria por estar viva. Ontem, enquanto caminhava para sair do cemitério após o enterro, passando por aquela infinidade de túmulos, vendo as datas de nascimento e partida das pessoas, algumas de 1800 e alguma coisa, algo mudou em mim. Quando a mãe se foi, passei alguns dias ‘em coma’, mas depois fui arrebatada por um sentimento de presença. Se fiquei aqui, viva, com saúde, ouvindo, sentindo e tudo o mais, alguma responsabilidade tenho. Sou responsável pela minha felicidade, pela realização dos meus sonhos, pela minha saúde e por uma parte da felicidade dos que fazem parte da minha vida.

A doença me ensinou que a vida é hoje. Não é amanhã e nem depois, e não dá pra adiar sonhos ou abrir mão do que você considera importante. Arrependimentos são corrosivos. Aquele papo de que é melhor se arrepender do que fez faz todo sentido.

A doença me ensinou a desapegar ainda mais. Nunca tive muito e isso nunca me fez falta. A doença me mostrou que com saúde a gente pode recomeçar a qualquer momento.

A doença me ensinou que o que importa é como as pessoas te fazem sentir – e vice versa. Não dá pra adiar telefonemas, abraços, conversas. Não dá pra economizar ‘eu te amo’ e não dá pra engolir elogios. Aprendi que preciso elogiar mais as pessoas, que se f.. as críticas porque quando alguém morre elas não servem pra nada. Dona Tizi me deixava louca com mais frequência do que me deixava feliz, fato, mas vocês acham que isso importa ou vem à tona desde que ela se foi? Agora só tenho um buraco no peito porque sei que ninguém nesse planeta é capaz de me fazer sentir especial como ela conseguia. Porque a gente não percebe antes a importância de fazer os outros SENTIREM coisas boas causadas, ditas, escritas ou feitas por nós?

A doença me ensinou que a gente corre contra o tempo. Vou fazer 35 anos esse ano. Só me resta acelerar.

A doença me ensinou que a gente perde as pessoas que ama cedo demais. Seguir sem elas talvez seja a missão mais nonsense de todas.

A doença me ensinou que preciso cuidar da minha saúde para ter mais chance contra ela. Desde que minha mãe morreu nunca mais coloquei um cigarro na boca, e isso fez um bem fdp aos meus pulmões e à minha pele. Fumar pra quê, mesmo? Desde que minha sogra partiu decidi que álcool, a partir de agora, só pontualmente, porque não quero pagar a conta da garrafa de vinho diária no jantar.

A doença me ensinou que a única coisa de valor que temos é o amor. Se você não tem amor, você não tem nada, simples assim. E se você não dá amor, é ainda mais pobre.

A doença me ensinou que meu maior tesouro são as minhas memórias. Comecei um caderninho de recordações sobre a mãe e sentar a sós com ele no sol passou a ser um dos momentos de maior felicidade na minha existência que segue. Não consigo nem tirar da bolsa mais, de alguma maneira doida isso me traz serenidade.

O grande problema da morte, além da saudade e da falta que a presença física faz, é ter que ressignificar a vida. Taí uma tarefa difícil e doída. Taí uma tarefa bonita. Taí a prova de que até mesmo da morte podemos tirar alguma coisa boa, se tivermos nobreza de espírito suficiente para isso. Espero ter.

98 amaram.

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4 Comentários

  • Responder Miucha 05/07/2016 at 6:17 pm

    Só quero te deixar um beijo e um abraço apertado…

  • Responder Rejane 07/07/2016 at 1:24 am

    Lindas palavras! Só quem ja viu a morte de entes queridos de perto entende o que tu com perfeição descreveste…..

  • Responder Cláudia 10/07/2016 at 11:36 am

    Paula,um forte abraço e que Deus te acompanhe em todos momentos da tua vida! Bjs da Cláudia,amiga de Capão!

  • Responder luciana dos santos 15/08/2016 at 6:11 pm

    nossa que lindo que exemplo maravilhoso para pessoas que acham ser tanta coisa e so pensao em si sabemos que nao somos nada e o nosso maior tesouro realmente e o amor querida recebe meu abraco tambem perdi meu pedaco de mim dia 09 de abril de 2026 bem no dia do meu aniversario pode nao acreditar mas leio esta carta que voce escreve para sua mae e sinto o mesmo tudo as lagrimas rolam pelo rosto ate certo tempo achei que so eu estava com esta dor ate te encontrar um forte abraco

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