Myself

O primeiro mês

17/04/2016

Um mês sem mãe. Mas parece que foi há um ano. O dia mais difícil foi quando fui dar entrada numa papelada de visto e o atendente me disse: “Você não colocou nada sobre sua mãe nem sobre o seu pai“. Me vi tendo que responder: “Minha mãe morreu e não sei endereço nem telefone do meu pai“. Foi aí que minha ficha caiu. Irremediavelmente sozinha, sem genitores nem descendentes. Quando me dei por conta de tudo isso deu vontade de sair correndo, de tanto desespero e tristeza que senti. Só sei que caminhei umas 15 longas quadras em plena Avenida das Américas no sol do meio dia, tentanto respirar.

Fiquei 10 dias sem derramar uma lágrima, me sentindo um robô, um monstro insensível. Falava do assunto com aqueles que me perguntavam com uma naturalidade assustadora. Aí chegou uma noite em que comecei a olhar algumas fotos, e desmoronei. Lavei a alma chorando por umas 4 horas. Foi bom. Algumas manhãs acordo com uma sensação física de vazio, como se um elefante tivesse passado a noite em cima do meu peito. As noites são sempre uma surpresa, porque vario entre não pensar e olhar pela janela, ver o Cristo de braços abertos e um céu estrelado e sentir um vazio ainda maior. Dor e vazio juntos pesam uma tonelada, no mínimo.

Escrevo cartas para ela e guardo num fichário que ela me deu. É o único jeito que consigo de tentar uma conversa e não me sentir louca. Enquanto escrevo sinto como se estivesse ao meu lado batendo papo comigo. Me faz bem, porque tenho muito medo de esquecer da minha mãe. Aí lembro que a gente nunca esquece como alguém nos fez sentir e vejo que isso é impossível. Agora entendo as pessoas que perdem os pais cedo. A memória é traidora, e você quer esquecer da dor mas quer lembrar da pessoa. Ao mesmo tempo. Complicado…

Aprendi nesse primeiro mês que não existe nada mais solitário, pessoal e instransferível do que a dor de perder alguém que a gente amava. Essa dor é quase incomunicável, especialmente porque a vida continua e ninguém vai parar pra discutir com você a fundo essas coisas. Aprendi também que as pessoas se acham no direito de te falar muita merda e pensam que apressar o seu luto é uma ótima idéia. Quem sofre acaba escolhendo esconder bastante porque é mais fácil do que ter que tratar um assunto tão caro e tão doído como se fosse uma conta de luz.

O luto tem fases, é verdade. Talvez o início tenha sido ‘tranquilo’ pra mim porque eu já vinha – ainda que não tivesse consciência disso – num processo lento de despedida involuntária. Às vezes ainda parece que preciso pegar o telefone e ligar para falar com ela. Não perco meu tempo questionando, as coisas são como são, mas perco meu tempo tentando digerir e amenizar minha dor. E ela me nocauteia em momentos impróprios, como quando entro num ônibus ou num metrô e sem perceber busco o celular pra ver se tem algum whatsapp dela que não li. É cérebro lutando com coração e estômago pagando a conta.

A morte é tão louca que me pego olhando pro Luciano e pensando que ele vai morrer a qualquer momento. Passei a detestar ficar sozinha e por mais infantil que pareça, lugares escuros agora me apavoram.

A morte é tipo um espelho que te persegue o dia inteiro querendo que você olhe para ele. E veja seu reflexo e reflita sobre a sua existência, suas escolhas, seus sonhos, seu legado. E isso além de cansativo, é perturbador. Meus ‘não sei’ sobre a vida e várias decisões têm me atormentado demais. Tem dias que quero quebrar o espelho. Tem dias que sorrio para ele.

87 amaram.

Você também poderá gostar

12 Comentários

  • Responder Regina 17/04/2016 at 8:16 pm

    Também estou passando por uma morte, não de mãe, mas de uma pessoa muito importante para mim, e me sinto muito como te sentes. Realmente não existe nada tão , mas tão pessoal como a dor de uma perda. E ao olhar pela janela e ver que o mundo continua se movendo como se nada estivesse acontecendo de diferente, enquanto que para nós , o nosso mundo ruiu e nada mais vai ser igual é devastador.

  • Responder Edna 17/04/2016 at 10:01 pm

    Amei! Lindo e real!

  • Responder Beth Santos 18/04/2016 at 4:17 pm

    Paulinha …Acho que está na hora de vc encomendar um bebê…
    Ficaria muito FELIZ..

  • Responder Lilian 18/04/2016 at 4:43 pm

    Não passei pelo que vc está passando, mas qdo fiz 40 a primeira coisa que me veio a cabeça não foram as rugas que vão aparecer ou os cabelos brancos, mas a proximidade da morte dos meus pais que daqui a pouco estarão com seus 70 anos…comecei a ler um livro “O livro Tibetano do Viver e do Morrer”, dizem que ele te dá o alento não só para a morte dos entes, mas a sua própria, que como algo inevitável um dia acontecerá e tb mostra que estando ciente da inevitabilidade da morte passamos a dar mais valor à vida, aos outros e ao próprio mundo. Estou na página 100 de mais de 500, e tem sido bom…Cada um sabe o tempo de sua dor, mas é sempre bom encontrar alento que às vezes as pessoas não conseguem dar, por não saberem nem como tocar no assunto. Desculpe o textão. Espero que sua dor um dia amenize a ponto de vc sorrir ao lembrar da sua mãe.

  • Responder Lilian 18/04/2016 at 5:07 pm

    Muito profundo, e lindas as suas palavras… consigo quase que sentir a sua dor pelo seu texto, e os olhos me enchem de lágrimas… a vontade é de poder ajudar de alguma forma, mas como vc mesma disse, é algo solitário, que tem que ser elaborado e transmutado dentro de cada um, e somente o senhor do relógio é que tem poder de fazer algo sobre isso.
    Te desejo muita paz, e muito entendimento. Um grande beijo.

  • Responder Tatiana 18/04/2016 at 9:37 pm

    Olá, já acompanho seu blog há alguns anos, e qndo vc veio pro RJ até pensei em te chamar prá um chopp!
    Há algum tempo, vejo algumas reflexões por aqui, muito importantes em relação à vida.
    Mas sinto tbm, que falta alguma coisa….
    E agora, com esse acontecimento na sua vida…
    Resolvi tomar a iniciativa respeitosa de sugerir que vc faça terapia….
    Que tal?
    Bom, claro que eu indico a minha, fica no Leblon e tem um perfil que eu acho perfeito prá vc!
    ( não gostaria que vc publicasse este comentário, acho desnecessário.)
    Se quiser, me manda um email, e te mando o tel dela, ou conversamos, enfim…
    Meus pais já morreram há mais de 10 anos, sei o que está acontecendo com vc.
    Um BJ, com carinho, Tati

  • Responder Laura 19/04/2016 at 7:45 am

    O tempo ficou relativizado… Congela e voa ao mesmo tempo. A vida continua mas sempre tem uma sensação em stand by, de que tudo é só um sonho ruim do qual vamos despertar. As pessoas não sabem lidar com o desconforto alheio, é fato. Um mês depois que o pai faleceu, tinha gente mandando minha mãe viajar e conhecer gente. Quer falta de sensibilidade maior do que essa? Acho a maior estupidez as pessoas cobrarem que as pessoas superem a perda de alguém que amamos. É uma experiência que nos muda por completo e que não existe a possibilida de “superar”. A questão é aprender a conviver com a ausência… Essa passageira sempre vai nos acompanhar. Beijos

  • Responder FERNANDA FARIA BELO 19/04/2016 at 8:16 am

    Paula, entendo perfeitamente o que sente. Perdi minha mãe em 2010. Vivi todas as fases do luto.É estranho perceber que o mundo continua seu movimento normal, mas o nosso mundo tem um ritmo diferente. É mais lento, e principalmente doloroso. Espero sinceramente que fique bem!

  • Responder Camila 20/04/2016 at 11:06 am

    Não existem palavras..elas são mera tentativa de não se engasgar com a dor. Fazes isso lindamente.
    Também voto para que encomendes um bebê…a vida se renovando…
    Um beijo.
    Muita luz e força pra seguir.

  • Responder Ana Lucia 24/04/2016 at 11:08 pm

    Você disse tudo que sinto é não expresso!
    Perdi minha Mãe há dez dias e acho que me perdi tbem, tudo muito estranho , doido, louco…

  • Responder Alex Aparecido Hermini 26/04/2016 at 5:55 pm

    Em fevereiro, perdi de forma trágica e repentina meu companheiro. Ele tinha 29 anos. Vivíamos juntos há 11 anos. Em abril, completei 41 anos. Sozinho, nessa selva de pedra que é São Paulo, imagino por horas que não resistirei. A solidão e a dor é atroz. O futuro? Não consigo pensar nos próximos 5 minutos…

  • Responder Camila Moreira Marques 07/05/2016 at 10:29 pm

    Minha querida amiga de ternos momentos da nossa infância e adolescência. Não há muito o que dizer ou muito.. No entanto, SINTA UM FORTE E AMOROSO ABRAÇO. Camila.💗

  • Deixe seu comentário

    This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.