Myself

Lowsumerism – vamos viver com menos?

18/09/2015

aaa

Ontem fui a uma palestra do André Carvalhal (coordenador do IED Rio e o cérebro do marketing da Farm). Sou fã dele desde que o conheci em 2010, numa visita à fábrica da Farm em São Cristóvão. A idéia era falar de marketing com propósito (mesmo sem formação na área, sou louca por marketing e ainda vou trabalhar com isso), e eu cheguei lá ansiosa e saí de lá com a cabeça fervendo. Pro bem, claro.

Ainda não tinha parado pra pensar na era pós-capitalismo, que é a que vivenciamos hoje e vem sendo chamada de Lowsumerism (assistam o primeiro vídeo para um brainstorming bem bom). Mas depois de ouvir o que o André tinha para dizer me dei por conta que o meu desejo de consumir diminuiu. E muito. Lembro que a primeira vez que ganhei de presente uma bolsa por causa do blog fiquei dando pulos por dentro e pensando: “O dia em que tiver uma bolsa de cada cor, vou ser tão feliz!” Não demorou muito para esse dia chegar e a ficha cair: aquilo não me trouxe felicidade nenhuma.

Como fui uma criança/adolescente que usualmente precisou esperar para ter as coisas que queria (e muitas vezes não as tive) minha relação com bens materiais sempre teve uma pegada mais low. Eu esperava ansiosamente pelo tênis que desejava e, quando finalmente ganhava, passava longos meses curtindo e amando aquele presente. Até hoje lembro de itens com os quais tive uma relação duradoura: meu primeiro Reebok, um Adidas preto tamanho 41 (quando consegui o $$ para comprar só tinha nesse número, e eu andei bons meses por aí com ele mesmo calçando 36!), um vestido Giovanna Baby, um trench coat da Benetton. Nossa, boas lembranças…

Comecei a ganhar meu próprio dinheiro com 20 anos quando passei num concurso público, e a partir daí meu modus operandi consumista mudou. Eu frequentava lojas tipo Renner e Riachuelo direto, mas só curtia os itens de R$9,99 que descobria sem querer – nunca achei que uma peça de fast fashion valesse mais do que R$50 com aqueles tecidos sintéticos que só de olhar já dava alergia. Esperava as liquidações de verão e inverno sem pressa e sem problemas – acho que meu lance era mesmo catar pechinchas que fosse usar um tempão. Evoluí para as compras via e-commerce e descobri que dava pra gastar bem menos dinheiro assim do que indo na loja (saudade dos cupons de desconto, rsrsrs) mas, ao mesmo tempo, só o fato do cartão de crédito já estar cadastrado fazia com que a ânsia consumista explodisse. Sites de liquidações como Privalia e Westwing são ótimos pra economizar, mas a gente precisa de muito autocontrole e consciência.

Acho que o mundo vem caminhando para uma mudança total de consciência no que diz respeito ao consumo. Alguns países mais lentamente do que outros, e nós no Brasil seremos automaticamente acelerados em função dessa crise econômica horrorosa pela qual estamos passando. Aqui no Rio, lojas que viviam bufando de gente hoje estão vazias. Muitas já fecharam. Essa mudança de consciência está ligada a muitos fatores, mas acho que dois são os mais significativos: a questão da sustentabilidade e a percepção de que não vale a pena gastar o tempo que usamos trabalhando para ganhar $ adquirindo coisas freneticamente – elas não preenchem nosso vazio e não trazem a felicidade que a indústria da propaganda tenta nos fazer acreditar que traz.

A gente não precisa mais comprar um bem para usufruir dele. Vide Uber, AirBnB e as maravilhas da tecnologia que nos permitem a ‘posse sem posse‘ por um preço simbólico se comparado ao real preço do bem.

Vamos passar a pensata pra parte bloguística. Faz algum sentido pra vocês esses blogs/sites de pessoas que promovem de uma maneira quase doentia o consumismo? Hoje o ‘must-have’ é esse, amanhã é aquele, depois, só Deus sabe. É um discurso e um estilo de vida sem consistência nenhuma. ‘Compre, compre, compre. Eu, esse ser sem identidade ou com uma identidade forjada para vender coisas online não estou te obrigando, só estou ganhando dinheiro cada vez que você compra!‘ Esses dias vi no Instagram de uma menina riquíssima uma foto dela numa loja com a legenda ‘comprando tudo novo!’, como se alguém precisasse renovar o armário de roupa de cama uma vez a cada três meses. Cabe a cada um de nós dar follow ou unfollow de acordo com a própria consciência. Quem gosta de ser o tipo de pessoa que se ‘inspira’ em gente fake vai continuar sendo, e não adianta. É uma pena, realmente, que as pessoas ainda sintam tesão por acompanhar o ‘núcleo rico da novela das 8’ em todas as redes, de todos os jeitos – com pouca simpatia pela vida real e suas nuances, pelas batalhas reais e pelas dores diárias, essas sim, todas experiências quase universais. Melhor aplacar a solidão com brilho, ouro e paetê, não é mesmo?

A gente é atingido pelo discurso que nos toca o coração. O apelo ao consumismo desenfreado não me seduz. Fico puta de comprar um iPhone sabendo que 6 meses depois ele estará ‘obsoleto’, fico puta da vida mesmo de ter que achar normal que as coisas quebrem com a velocidade em que quebram, fico com raiva de gastar dinheiro em vão. Tempo é dinheiro, mas não naquele sentido que gostam de nos fazer acreditar. Tempo é dinheiro na medida em que você perde seu precioso tempo na Terra trabalhando feito louco para poder gerar $, portanto, um ser humano com o mínimo de bom senso tem obrigação moral de fazer valer esse tempo da melhor forma. Talvez aqui entre um Milan Kundera com o paradoxo do peso X leveza: vale mesmo a pena levar essa vida de trabalho quase escravo cujo valor desaparece inteiro no consumo?

Quando me mudei pro Rio precisei desapegar, e na época achei que seria sofrido. Doei mais de 300 livros, vendi dezenas de sapatos, bolsas e roupas. Ao chegar aqui e me deparar com a leveza que eu tinha trazido comigo, fiquei feliz por perceber que prefiro ser leve. Espero que essa crise econômica sirva ao propósito de nos forçar a passar por uma crise existencial, porque precisamos disso. Não precisamos do melhor, do mais caro, do mais hype, do mais indicado. Precisamos de tempo, de qualidade, de significado e de amor. A gente pode viver com menos. Muito menos. Vamos tentar?

76 amaram.

Você também poderá gostar

22 Comentários

  • Responder sininhu 18/09/2015 at 12:34 pm

    Palmas! Que texto mais perfeito!

    Recentemente escrevi um post onde apontava as diferenças entre ser blogueira e socialite, coisa que anda um pouco confundida ultimamente. Esse teu texto casa perfeitamente com essa linha de pensamento. Tá todo mundo de saco cheio dessa história de “tem que ter/must have”. Lembro que o bom dos blogs era descobrir dicas baratinhas de onde conseguir uma peça inspired digna sem precisar gastar fortunas para isso. Agora o negócio descambou para o lado de ~ter~ que comprar Louboutins como se fossem algo banal “Ah, me vê 3, por favor, um de cada cor!”. É triste pq muitas meninas começam a blogar achando que é fácil e que para ter tudo isso basta ter um blog – só que a maioria das blogueiras que exibem um estilo de socialite já viviam assim antes de começarem a exibir isso pela internet.
    Falta um pouco de consciência no público, seja na hora de passar o cartão ou de acompanhar blogs que reflitam pessoas mais próximas da realidade. Não que tenham que parar de sonhar, mas apenas que ponderem quais valores valem a pena de verdade para não perder tempo e energia buscando uma vida de mentira que nem ~aquela blogueira~ vive.
    A propósito, aquele post de trocar toda a roupa de cama é uma publicidade mascarada, já que a família dela é dona da loja e está patrocinando algumas outras blogueiras tb. Tudo é uma ilusão nos blogs de hoje em dia.

  • Responder Mariele 18/09/2015 at 3:50 pm

    Paula:
    Tive uma professora na faculdade chamada Tais Veras, conheces? rs Certo dia vi que ela curtiu algo no face da Paula Pfeifer e eu pensei: Paula, minha ex-colega do colégio! Achei estranho a profe Tais ser amiga da Paula, já que são de áreas diferentes. Mas como sabia que a Paula estava estudando em SM, cidade da minha profe, pensei que se conhecessem de lá. E assim eu te mandei um convite de amizade pelo face. Depois que vi tuas postagens é que fui entender que tudo não passou de uma confusão minha, e que minha ex-colega do colégio tem o mesmo nome teu. Mas foi um ótima surpresa. Adoro tuas dicas, adoro teus textos. Além de uma redação ótima, textos como o de hoje fazem pensar. Obrigada por compartilhar conosco! Sigo te acompanhando! 😉

  • Responder Camila 18/09/2015 at 9:26 pm

    Paula,Parabéns!
    Texto brilhante e objetivo sobre essa cultura/loucura que estamos vivendo hoje.
    Valeu a reflexão!!!!

  • Responder Claudia Paiva 19/09/2015 at 8:57 pm

    Muito bom o texto. Essa conscientização sobre o hábito de consumir é muito importante para crescermos como pessoas, e para o meio ambiente também.

    Parabéns, ótima reflexão. Obrigafa pot compartilhar conosco no seu og essas informações. Deus te abençoe sempre Paula.

  • Responder Fernanda Esteves 22/09/2015 at 9:20 am

    Parabéns pelo texto e reflexão!
    Acredito que crises são os melhores momentos para se reinventar, inovar e crescer. A mudança na forma de consumo precisa acontecer, para nosso bem e bem do planeta! Um beijo

  • Responder Renata 23/09/2015 at 12:51 pm

    Olá, Paula!
    Vim parar no seu blog por meio do 2beauty.com e fiquei impressionada com o quanto que as suas palavras se igualam às minhas quando o assunto é consumismo.
    Confesso que ver essa explosão de coisas, cores, formas e tudo mais em um só guarda-roupa têm me deixado tonta. Alguns me chama de mão de vaca, eu só acho que é uma questão de bom senso: Não vou trabalhar 40 horas pra gastar isso em um dia e em uma coisa que não fará diferença na minha felicidade.

    Eu não sou ninguém, mas dou os meus parabéns pelo belíssimo texto.

  • Responder Andrea 23/09/2015 at 1:56 pm

    Se um dia você estiver andando despreocupada pelas ruas do Rio e uma louca pular na sua frente, essa serei EU!!!
    Eu já estava numa onda de ter menos coisas, porque não tinha mais espaço e vivia sempre no caos. Aí li o livro da Marie Kondo (modinha, eu sei) e apliquei nas minhas roupas o princípio do método dela. Ainda não terminei de arrumar tudo, mas descobri que tinha 89 regatas. Agora, me responda: quem em sã consciência precisa ter 89 regatas? Mesmo no RJ onde é aceitável sair de regata…
    E eu parei de seguir muita gente, seja no IG seja no FB. Principalmente, porque agora tudo é publi. Nada contra, todo mundo precisa ganhar seu sustento, mas eu não sou obrigada a ler a mesma coisa em vários lugares escritas pela mesma assessoria de imprensa!

  • Responder Daiane 23/09/2015 at 2:00 pm

    Uau!!! Que baita texto. Muito bem escrito. Disse tudo, não precisamos de muito para ser feliz, menos ainda seguir à risca o “exemplo” das blogueiras. Temos apenas uma boca, por que ter 50 cores de batom? As meninas mais novas, estão, infelizmente cada vez mais fúteis porque não pegam um livro pra ler, é melhor acompanhar a vida banal da fulana que seguir o que a mãe diz. Isso quando a mãe é do tipo que participa ativa da vida dos filhos. Uma pena, pois uma frase antiga que diz “tem gente que sabe o preço de tudo e o valor de nada” concretiza nossa realidade.
    Parabéns pelo texto, Paula! Sucesso sempre

  • Responder E 23/09/2015 at 2:36 pm

    Esta discussão cabe para nós que estamos na porcentagem privilegiada da população,sim porque a grande,imensa maioria,vive com quase nada.
    Dizem que o Brasil é a 7ª economia do mundo.Tá bom….e mais da metade da população não tem saneamento básico,banheiro,água tratada.Qual será o must have deles?Sim,consumimos “muito” porque criamos necessidades.Eu estou como o mesmo celular há quase 3 anos e não vejo porque me desfazer dele,funciona perfeitamente.E tem sido assim com tudo:só troco quando não está mais cabendo/funcionando/sendo útil.E sim,questiono os estoques de cosméticos que fiz:preciso de outra eu para usar tudo.Pra quê Tanto?

  • Responder Marcela de Vasconcellos 23/09/2015 at 9:21 pm

    É aquela coisa de o que você leva da vida é a vida que você leva. Não as 89 regatas, os 300 livros, os 75 sapatos…é o que voc~e fez de bom, quem você é.

  • Responder L. 24/09/2015 at 10:15 am

    Muito bem pontuado, Paula! Como leitora assídua de blogs de moda, sinto falta de mais “gente como a gente”. É tanta Milão Fashion Week, Louboutins, achados de farmácia de Miami, almoços perfeitos e férias milionárias em Ibiza que fica, sim, impossível acompanhar tudo isso. E pior: que atire a primeira pedra quem nunca se sentiu mal por não ter vida igual.
    Pra mim o momento exige bastante consciência do público. Pensando assim, dou sem dó “unfollow” pra essa realidade totalmente oposta à minha, e sigo garimpando blogs com conteúdo de verdade, ao invés de tanta superficialidade e consumismo exacerbado.

  • Responder maria cecília viana 24/09/2015 at 4:45 pm

    Texto muito lúcido!!

  • Responder Déborah 24/09/2015 at 5:25 pm

    Não conhecia seu blog, mas é uma imensa alegria encontrar um e de cara ler um texto ótimo desse! Ler um texto real! Parabéns! Adorei e volto!!!

  • Responder Silvia 24/09/2015 at 7:06 pm

    Ainda não vi os vídeos mas achei lindo o seu texto, especialmente qdo você fala que ter uma bolsa de cada cor não te trouxe felicidade. É tão difícil perceber isso, né? E fazer a troca de comprar a pechincha para as compras inteligentes tb é uma complexa do nosso crescimento.

    Enfim, parabéns! Já salvei para assistir os vídeos depois.

    Beijos!

  • Responder Tentando desapegar #01 – Maquiagem | dizlu 24/09/2015 at 10:13 pm

    […] então ao meu momento (Oscar feelings, só que não). Assim como comenta a Paula Pfeifer no final desse post, eu também me mudei recentemente (e pra longe) e, por consequência, tive que deixar bastante […]

  • Responder Patricia 25/09/2015 at 5:27 am

    Muito bom! Tenho me sentido assim. Sinto cada vez menos vontade de consumir. E agora estou nos Estados Unidos, deveria querer mais e mais. Mas ao contrario, sinto que meu espirito tem me pedido o contrario. Acho que a Humanidade esta’ sofrendo uma mudanca de paradigmas. Fico feliz em saber que outras pessoas tambem se sentem assim.

  • Responder Lauren Zanini 25/09/2015 at 10:21 am

    Meio ao acaso encontrei teu blog e, principalmente este post. E não é que ele chegou em um momento super válido? Decidi desapegar das coisas materiais em excesso. Na verdade, nem tenho muita coisa, mas percebi que posso viver com bem menos. Minhas roupas começaram a “desaparecer” do armário e a partir de agora só compro o que eu for realmente usar muuuuuitas vezes. A única coisa que não desapego são os meus livros, acho que eu viveria bem só com uma muda de roupa, mas não sem os livros HAHA
    Obrigada por escrever isso, aumentou minha vontade de mudar!

  • Responder Leituras da semana | Frugalidades 26/09/2015 at 9:50 am

    […] ♥ Viver com menos […]

  • Responder Cezar Augusto Gehm Filho 27/09/2015 at 1:07 am

    Que legal te ver assim Paula! Te desejo muito sucesso e fico feliz que estejas bem!

  • Responder Leticia 15/10/2015 at 12:33 pm

    que texto excelente! Tbm sempre valorizei muito as coisinhas que eu ganhava ou comprava com o dinheiro que ia juntando. Nunca entendi esse negócio de sair comprando tudo que existe e tenho roupas que uso desde a época do colégio (ora, se estão boas, porque não usá-las?). Acho que o único ponto que eu fiquei meio louca uma época foi livros e me acabava comprando mais livros do que conseguiria ler. Já parei com isso também. Bjs!

  • Responder Jaque Balas 20/10/2015 at 10:11 am

    Oi Paula! tudo bem?

    fazia tempo que não lia um texto do seu blog, acho que cansei um pouco de blogs, mas, é tão bom voltar e, ler algo que nos faz pensar. obrigada por este texto. beijos

  • Responder Lowsumerism: menos é mais! - Chez Biessa 06/01/2016 at 5:43 am

    […] E também a leitura de alguns blogs, como o Less is the new black – meu primeiro contato com o armário-capsula, uma ideia que pretendo colocar em prática no futuro – e o Teoria Criativa, além deste artigo do blog Sweetest Person. […]

  • Deixe seu comentário