Amor by Paula Pfeifer

Vamos falar sobre a morte

20/02/2017

Estou me preparando psicologicamente para o mês de março, que achei que nunca fosse chegar – pra mim estava lá longe numa distância inalcançável. Mas não. Está quase chegando para me relembrar que um ano se passou. Um ano se passou desde que ela se foi, desde que meu celular nunca mais recebeu uma chamada, uma mensagem, um recado, nada. Desde que minha única alternativa é rezar para encontra-la, vezenquando, em sonhos.

Não sei como sobrevivi ao primeiro ano com a mente sã e o corpo são. Nos primeiros meses achei que fosse paralisar de tanta dor, de tantos ácidos no estômago, de tantas lágrimas nos momentos mais inesperados. Também pensei que não teria força física para chutar a depressão e a tristeza que teimavam em me alcançar aonde quer que fosse. Tantas noites de choro, tantas manhãs sem vontade de levantar, tantos dias arrastados.

Frequentemente passo por alguém na rua que está usando algum perfume que ela usava. Facada no peito.

Frequentemente sinto uma ânsia louca de contar algo para ela. Sensação de falta de ar.

Frequentemente tenho o impulso de mandar uma foto minha só para ler um “tá linda, minha filha”. Lágrima ácida.

Frequentemente só consigo pegar no sono pensando nela, numa tentativa desesperada de não esquecê-la. Dor.

Seria tão melhor e tão mais fácil se as pessoas estivessem abertas para falar da morte, mas a verdade é que ninguém está. Pra mim, é terapêutico. Mas é muito assustador, para a grande maioria de nós, sequer pensar na morte; que dirá falar sobre ela com naturalidade e com a sabedoria de que é a única certeza que temos na vida.

Falar sobre o luto é muito tranquilo: estou sofrendo, sinto saudades, meu corpo dói, minha mente jamais voltará a ser a mesma. Falar sobre a morte é falar sobre a nossa própria vida, sobre tudo o que gostamos e não gostamos nela, sobre as burradas das pessoas que nos antecederam, sobre para onde estamos indo, sobre sentimentos e dizeres que ficam escondidos numa caixa no porão da alma. E, o mais-mais: sobre quem amamos e como estamos conduzindo este amor.

A escuridão me trouxe uma luz que eu não conhecia. Com ela, veio o entendimento de que estar vivo é um presente tão, mas tão foda, que a gente só chega perto de captar essa coisa sublime que é o que nos mantém vivos quando alguém que amamos muito morre. A morte é um tapa na cara, um lembrete de que não temos o tempo que supomos ter, que dobrando a esquina tudo pode desmoronar.

Fui a São Paulo para um encontro de usuários de implante coclear e várias pessoas vieram falar comigo e relembrar alguma coisa sobre a minha mãe. Gente que não tinha tido a chance de me dar um abraço ao vivo antes. Foi tão bonito! Mas acabei pedindo para que ninguém mais falasse nela porque eu não consegui evitar de começar a chorar. E não queria lágrimas. Voltar a ouvir foi a experiência mais íntima e poderosa que nós duas compartilhamos, e muitas pessoas vão lembrar dela por muitos anos porque, ao me ver renascida, não poupou esforços para ajudar vários outros surdos quanto a isso. O corpo vai, o bem que fizemos fica.

Engraçado como só agora faz sentido aquela frase cafona que diz que o tempo cura tudo. Não sei se cura, mas ameniza. Inevitável pensar que, um dia, 18 de março marcará dez anos sem a presença física da Tizi. Me pego pensando qual será o sentimento, se o buraco com o qual convivo hoje estará mais preenchido: por quem, pelo quê? Será que vou conseguir transformar esse vazio em algo bonito do qual ela sentiria orgulho? Queria tanto ser capaz disso…

*Fiz esse quadro com o @ilustra_melo

Só depois da sua partida é que fui compreender que um dos maiores – senão o maior – presentes que ela me deu foi o entendimento de que “O Universo conspira a meu favor em todos os momentos da minha vida“. Isso me salva, me tira do buraco, me puxa pra cima, me enche das esperanças mais loucas, me faz acreditar que tudo vai dar certo, me faz acreditar em mim. Mandei gravar na lápide, em lindas letras douradas, para ver se inspira alguém que estiver passeando pelo cemitério numa tarde saudosa. Mandei fazer um quadrinho em caligrafia com estes dizeres e pendurei ao meu lado, no quarto, para dormir e acordar pensando nisso. Inevitável não lembrar dela me dizendo ‘tu precisa engolir o Poder do Subsconsciente, guria…‘ Quanta generosidade me dar as ferramentas que me segurariam de pé após a sua morte, mãe.

Quando fizer um ano, 365 dias, 12 meses que minha mãe se foi, decidi que quero celebrar a vida. Não sei como, nem onde, mas quero ter um dia que seja uma homenagem a ela, a todas as aventuras que enfrentamos juntas, a tudo o que ela me ensinou, às nossas risadas, aos nossos choros, aos 34 anos que compartilhamos neste planeta. Aceito sugestões de como celebrar esse dia. Alguém ajuda?

Foto: Shutterstock

75 amaram.

Você também poderá gostar

15 Comentários

  • Responder Jordana Freire 20/02/2017 at 6:18 pm

    Poderia reunir os amigos e fazer um daqueles baphões que ela tanto gostava.
    Saudades dela ❤.

    • Paula Pfeifer Moreira
      Responder Paula Pfeifer Moreira 20/02/2017 at 6:28 pm

      Ela te adorava, periquita <3

  • Responder Carine 20/02/2017 at 7:35 pm

    Estou e estarei sempre aberta a falar delas. Pois foram elas que nos seguraram pela mão quando a gente tinha vontade de fugir, de se isolar por conta do silêncio.. mas foi nossas rainhas que nos deram a maior das forças pra chegar aonde chegamos. É muito doloroso cada lembrança, mas sei que elas nos querem feliz e sorrindo, mesmo que tenham nos deixado sem nos ensinar a lidar com ausência delas

  • Responder Marcela Vasconcellos 20/02/2017 at 8:14 pm

    Se você quiser, eu te abraço o dia 18 inteiro do jeito que não pude ano.passado.
    Tmj pra sempre.

  • Responder JOISSI 21/02/2017 at 9:59 am

    Paula querida..saudades de ti…celebrar cada momento com alegria..um ensinamento q tua māe me deixou!!um bj grande!!!

    • Paula Pfeifer Moreira
      Responder Paula Pfeifer Moreira 21/02/2017 at 10:17 am

      Saudades!
      Pensar em ti é pensar na mãe e em nós três conversando e rindo!
      <3

  • Responder Anita Durand 21/02/2017 at 10:14 am

    Que lindo, Paula! É uma saudade tão grande, que teu texto me fez chorar. Saudade é o amor que fica e assim sigo a minha vida sem a presença física da minha mamy, pq ela tá sempre presente no meu pensamento e no meu coração. E a tua vai estar sempre assim.
    Celebre da forma como ela gostaria, faceira da forma como a tua mãe era. Tive o contato com ela, umas duas vezes,e ela era muito altiva, engraçada, faceira e parecia muito feliz. Acredito que seja assim que tu deva celebrar.
    Beijos e fica bem!

    • Paula Pfeifer Moreira
      Responder Paula Pfeifer Moreira 21/02/2017 at 10:20 am

      Anita, tem dias que a saudade mata a gente, né? 🙁

  • Responder Andressa 21/02/2017 at 2:56 pm

    Paula, comecei a ler esse texto sabendo que ia chorar como fiz quando li tudo o que tu escreveu desde que a tua mãe se foi. Obrigada por me lembrar que é preciso dar muito valor a quem a gente ama, todos os dias. Saí de Santa Maria e não moro pertinho dos meus pais desde 2015, mas não fico mais do que um dia sem falar com eles. Só de pensar em passar por uma perda dessas sinto uma angústia bem grande. Não posso te dar uma dica, mas achei maravilhosa a ideia de celebrar a vida e tudo de mais precioso que a tua mãe deixou pra ti. Beijos. <3

  • Responder Andrea 21/02/2017 at 5:08 pm

    A Tizi era puro brilho! Lindo teu texto e para uma homenagem: uma champa, comes e muita purpurina! Bjo querida

    • Paula Pfeifer Moreira
      Responder Paula Pfeifer Moreira 22/02/2017 at 9:16 am

      Obrigada por me dizer isso! 🙂

  • Responder Fernanda 23/02/2017 at 10:29 am

    Esse mês, também no dia 18, tive um sentimento parecido com o seu. Fez um mês que perdi minha melhor amiga, 20 anos de amizade. Amizade é uma coisa muito séria pra mim e por isso sempre tive muito medo do dia que eu perdesse um amigo. Esse dia chegou e foi logo com a melhor amiga. Enfim, ainda tô nesse caminho de esperar o tempo curar tudo, mas quando completou um mês eu também senti essa vontade de celebrar a vida. Pensei em fazer coisas que nós duas sempre fazíamos juntas (ir no restaurante que sempre íamos , pedir nosso prato preferido, ir nos lugares que ela gostava de ir…). No dia, infelizmente, não me senti 100% preparada pra fazer tudo isso sozinha, mas acho que é assim que irei homenageá-la quando fizer um ano. Ah, muito obrigada pelo seu texto. Foi uma forma de transformar o seu vazio em algo muito bonito, que me ajudou. Que mãe não se orgulharia disso? Beijos

  • Responder Vanessa 24/02/2017 at 12:17 pm

    Nossa, que maravilhoso este texto. Vc, com a sua dor, ainda esta ajudando pessoas a serem melhores.

    Eu sou mae de uma menina de 1 ano e meio e, no meio de tantos afazeres e responsabilidade, nao havia pensado como eu quero que ela se lembre de mim, o que quero ensinar pra ela. Quero sim que ela seja corajosa, otimista, que acredite na forca de Deus e do Universo.

    Obrigada!

  • Responder Inês Ferreira 25/02/2017 at 8:00 pm

    Minha mãe (que ainda tenho comigo), diz que não tem um dia que ela não derrame uma lágrima pelos pais… Uns dias , uma lágrima, em outros choro sentido. Penso sempre sobre isso também como farei para manter vivos em mim e na minha vida meus pais amados. Lindo o seu texto.

  • Responder luciana 28/02/2017 at 10:28 am

    nossa que tristeza as minhas lagrimas estao rolando por meu rosto tambem terei que enfrentar isso perdi minha maezinha no dia 9 de abril do ano passado dia do meu aniversario nunca mais fui a mesma me sinto muito triste sempre visito o blog para ler os seus desabafos e choro muito sinto tudo o que voce sente eu vou pedir a DEUS para nos da forca para continuarmos aqui lutando um grande abraco paula e que os anjos do senhor possa acampar o seu lado sempre

  • Responder Carina 01/03/2017 at 12:02 am

    Lindo o texto! Sinto uma Saudade enorme,gigante do meu pai,que faleceu há 7anos…
    O tempo ameniza a dor,mas a saudade é permanente.

  • Deixe seu comentário