by Paula Pfeifer

Eu me perdi de mim

07/11/2016

Hoje foi um dia estranho – acordei chorando pela primeira vez em 35 anos. Sonhei que estava na frente do prédio em que morava conversando com minha vó, irmão e dinda, e de repente ouvi a voz da minha mãe. Fiquei atordoada e saí em busca dela pela rua, até que entrei num restaurante a céu aberto de dois andares, e à medida em que ia subindo escadas de madeira, meu corpo a sentia mais e mais próxima. Até que olhei para a fila do buffet e ela estava lá se servindo, com o cabelo escuro e curtinho, exatamente como o meu cabelo está agora. Me olhou e sorriu, um sorriso que mais pareceu a ponta de uma faca afiada indo e voltando no meu peito. Fiquei esperando que ela se aproximasse e, quando o fez, me olhou e se sentou numa cadeira, e ficava olhando para mim e sorrindo. Fiquei passando o dedo indicador no rosto dela, fazendo carinho, e mal podia acreditar naquilo. Chorei enquanto sonhava e despertei triste, tentando voltar para aquele sonho e para a companhia dela.

Uma hora depois, estava no hospital para visitar uma paciente da Sonora que fez implante coclear aos 80 anos. Só quem já tomou a mesma decisão entende a magnitude de fazer essa tentativa, e com essa idade é algo tão espetacular de se ver. Sensação de renascimento. Sensação de vida. Foi bom. Saí de lá sorrindo.

Duas horas mais tarde, entrei num estado alfa e fui ao enterro do pai de uma amiga. Não cheguei a reviver nenhum sentimento, até acho cemitérios bonitos. Vi um túmulo lindíssimo de uma pessoa chamada Ana Marcondes: os filhos mandaram fazer uma pirâmide enorme para ela. Espiei os túmulos de pessoas que se foram em 1890, pensei comigo mesma que os antigos tinham uma certa megalomania no quesito morada eterna. Às vezes digo que quero ser cremada, às vezes quero doar o corpo para a ciência; vi um chinês que inventou um tecido com esporos de fungos devoradores de carne humana. Devaneios da pesada…

Tal qual a imagem que ilustra esse post, minha alma e minha cabeça embaralharam. Ainda não consigo decidir se essa sensação de finitude generalizada que tomou conta de mim desde março é boa ou ruim. Em alguns momentos, sinto uma gratidão medonha por isso: me prendo no agora, coisa difícil de fazer se não estivermos bem atentos. Em outros, sinto uma angústia descomunal: pensar nas respostas que não tenho para perguntas indecifráveis me faz sentir uma descrença sofrida, uma vontade de chutar o balde. Tanto sofrimento meu e no mundo, pra que? Vamos todos virar pó, anyway.

Eu me perdi de mim, em boa parte. Por outro lado, ficou muito claro que estar aqui é um presente, que cada hora que passa é magia, que cada abraço não dado ou conversa adiada é um desperdício de um tempo que não volta mais. Mas também ficou claro que dessas coisas concretas da vida real, pouco me resta. Desapeguei de tudo que pude, guardei fotos importantes, organizei caderninhos de memórias e tento me preencher de amor. Trago a cabeça de volta quando ela teima em me assustar imaginando as próximas partidas. Da minha morte, não tenho medo. Mas tenho dor antecipada do vazio agudo que qualquer outra morte me trará. Se eu fiquei, é porque ainda tenho coisas a aprender e resolver – haja energia para revirar o baú dos traumas abafados na tentativa desesperada de encontrar algum sentido para acontecimentos pirados de toda uma história. De toda uma família.

Um dia é colorido, o outro, preto e branco. Num dia desatino, no outro, epifanias. Uma única certeza: por dentro, nada voltará a ser como antes. E nem poderia.

101 amaram.

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8 Comentários

  • Responder Eliane 07/11/2016 at 10:47 am

    Que tuuudo Paula, adoro tuas loucas e embaralhadas palavras que me fazem pensar no ontem, no hoje e no amanhã sem a minha mãe também. Tenho família, marido e filhos mas a mãe ficou muito próxima de mim na sua fase de idosa e eu me apeguei muito também no dia-a-dia. Todo este texto fiquei pensando nos dias em que vou passar sem a presença dela mas rapidamente volto ao passado e ao presente e agradeço à Deus por tê-la comigo. Adorei mais uma vez ler teu texto. Obrigada!!!!!!

    • Responder Paula Pfeifer Moreira 08/11/2016 at 9:09 pm

      Eliane, aproveita muito a companhia dela!
      <3

  • Responder Sacha Santos 07/11/2016 at 11:45 pm

    Paula! Eu tenho me visto em ti a cada texto. Eu também tinha um blog de epifanias que escrevia só pra mim, mas parei depois que minha mãe morreu. Assim como você, estou tentando recomeçar. Mas lidar com a falta de sentido nas coisas tem sido muito sofrido. É bom ver que não estou sozinha nesse barco.
    Força!

    • Responder Paula Pfeifer Moreira 08/11/2016 at 9:10 pm

      Tamo junto, Sacha.
      Recomeçando e ressignificando tudo.
      Beijo

  • Responder Roberta Mello 08/11/2016 at 2:12 pm

    Perdi meu pai há 4 anos, foi a dor mais insana que pude exprimentar, sonhar com ele era e ainda é uma das coisas mais incriveis, pois alem dele quase sempre estar bem, podia tocar, abraçar, reviver uma das melhores coisas do mundo, o abraço apertado que só ele sabia dar, hoje a dor é menos doída, mas sempre acho uma lastima nao poder ligar todos os dias pra ele e falar tudo ou falar nada, qdo li da passagem de sua mãe, entendi tanto sua dor, e cheguei a uma conclusao, que, em todas fases da vida temos as dores do crescimento, a do adulto é a finitude ( nao especificamente a minha, com essa to em paz), dos pais, tios, dessas pessoas que nos fizeram e agora estao partindo, olha, nao é facil e achei que demoraria muito mais a chegar…será sempre um desafio! Beijo querida!!

    • Responder Paula Pfeifer Moreira 08/11/2016 at 9:11 pm

      Roberta, obrigada por me mostrar que há esperança e que o tempo melhora tudo
      <3

  • Responder Fernanda Cardoso 23/11/2016 at 8:54 pm

    Perdi minha vó em fevereiro, foi muito difícil pra mim, alem de vó ela era uma grande amiga e protetora. Depois de toda dor da perda eu só soube agradecer, agradeço todos os dias por ter podido cuidar dela, por ter estado ao seu lado, por tudo que aprendi com ela, e por Deus ter colocado essa pessoa tão maravilhosa na minha vida. Ela não era maravilhosa porque era perfeita, mas por que me ensinou a amar, e a saber que temos erros e defeitos, que brigamos e sorrimos e que existe o perdão. A vida não sempre linda, convivemos com a dor todos os dias, mas sinto que no final, quando for o meu dia de partir, o caminho ai ter sido valioso.

    Um abraço! Se cuida….

  • Responder Bruna 24/11/2016 at 10:32 am

    Perdi minha vó que me criou, minha segunda mãe, e 1 ano depois, meu pai. Foi uma época terrível, não consegui lidar com toda essa perda, do top 5 de pessoas importantes da minha vida, duas foram embora em apenas 1 ano… tive depressão, precisei de terapia e uns 2 anos pra minha vida voltar um pouco aos eixos. Agora já fazem quase 10 anos, e o sentimento mudou do desespero inicial para a saudade. A dor já não é enlouquecedora como antes, mas percebi que ela sempre existirá. Em cada momento de imensa alegria, sempre rola aquela pontinha de tristeza, pois queria poder compartilhar isso com eles. Enfim, como vc disse no texto, quando perdemos alguém, não tememos nossa morte, mas a de outro ente querido. Tenha calma, uma hr a dor muda, as coisas acalmam e o coração fica mais tranquilo. Obrigada por compartilhar esse lindo texto!

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