by Paula Pfeifer

Em processo de cura

20/12/2017

Ler esse post da Ana me deixou com vontade de escrever. Fiquei pensando nas pequenas e grandes conquistas que 2017 me proporcionou, ainda mais eu, que tenho uma tendência muito forte a me diminuir. Esse ano entendi o que é estar em processo de cura, e talvez essa tenha sido a cereja do bolo dos aprendizados todos.

Demorei mais de trinta anos para reconhecer e entender que os meus grandes defeitos estão todos ligados, têm a mesma origem e nasceram pelo mesmo motivo: ser fruto de uma família desfuncional tem um custo alto, especialmente quando não fazemos terapia na infância-adolescência. Cresci acreditando num monte de coisas erradas. Achava que precisava sufocar os meus quereres e preferências em função do bem comum. Achava que o jeito certo de lidar com o abandono era não pensar sobre isso. Achava que se não podia confiar em quem me pôs no mundo não poderia dar chance a mais ninguém. Achava que bonito mesmo era estar junto nas horas ruins, só essas importavam. Cultivei o medo e aquela sensação cruel de impotência e não merecimento em silêncio, com um sorriso no rosto. Sem falar nas crenças horríveis de ‘não sou boa + bonita + inteligente + legal o suficiente’.

Nunca esqueço uma vez, na época em que ainda éramos namorados, que o Lu me disse: “Por favor, não se acostume com o que não te faz feliz!“. Parece tão simples, mas quebrar essa barreira é o obstáculo mais difícil de transpor na vida. É por isso que tantas pessoas passam décadas em casamentos falidos, em empregos que odeiam, sendo abusadas dentro de famílias doentes ou se sentindo um lixo das mais variadas maneiras. Algo dentro da gente nos faz acreditar que não temos alternativa, que é isso mesmo, aguenta, se vira. E não tem quem diga isso que acenda aquela centelha interior, esse processo é nosso e chega no nosso tempo.

O meu chegou. Demorou, mas veio.

Aos poucos, fui descobrindo como era a sensação de ter paz, por mais ilusória e momentânea que ela possa parecer. Descobri que não preciso me relacionar com quem me fez mal para ser uma boa pessoa – o desespero de achar que temos que ser aceitos a todo custo cria isso. Perdoa, se livra do peso e segue. Descobri que tenho que estreitar laços com quem quero, não com quem supostamente deveria querer – às vezes a gente simplesmente não quer, e tudo bem. Descobri que não sou responsável por consertar as almas partidas que fazem parte do meu círculo – o processo evolutivo é delas, não meu. E, a duras penas, descobri que posso me libertar de todas as crenças horrorosas que me acompanharam até então. Não preciso mais delas, não têm serventia e são resquícios de um passado e de uma pessoa que não existe mais.

Porque eu mudei.

Desde que pisei no Rio de Janeiro para morar aqui, no dia 4/12/2014, entrei num processo ferrado de autodescoberta. Eu achava que me conhecia, que sabia muito sobre quem eu era e o que eu queria. Só que não, nada disso, longe disso. Bem longe. Fiquei mais perdida que cego em tiroteio por muito tempo. Demorei horrores para absorver o lugar como meu lugar. Um dia li num muro “floresça onde a vida te plantar” e pensei, putz, é isso. Hoje me olho nas fotos de cinco anos atrás e fico tentando lembrar quem era aquela pessoa, porque não sou mais ela. E gosto de não ser.

Me sinto em processo de cura. Percebo que ele vem acontecendo lentamente, em coisas banais e nas grandes. Pessoas que tinham poder sobre mim não têm mais. Acontecimentos que me assombravam foram transmutados em algo tão pequeno que chego a rir quando penso nisso. Medos foram racionalizados e compreendidos como uma grande bobagem. E aqueles sentimentos ruins que tinham raízes fundas no meu ser foram podados por algum jardineiro do espírito. Acho que esse processo não acaba mais, e eu gosto dele de um jeito, e ele é tão íntimo e pessoal, que às vezes até assusta.

Depois que assisti I’m Not Your Guru, do Tony Robbins (apareceu na minha frente por acaso, nesses acasos calculadamente sinistros), entendi que não tem mais volta. Quando você percebe que está se curando, seguindo em frente, tocando a vida, abandonando tudo o que não serve, que revelação louca. O caminho é reto, sem olhar para trás.

A surdez não era nada perto de todo o resto que precisava ser recolocado no seu devido lugar. Juntar os cacos, dia após dia, tem sido de uma magnitude difícil de pôr em palavras. Não sei se você que quer – e precisa – está nessa vibe, mas sabe?

Como dizia o Caio Fernando Abreu: “Enfrente ou em frente, você me entende?” 

É isso.

81 amaram.

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1 Comentário

  • Responder Gih Oliveira 20/12/2017 at 8:54 pm

    Lindo texto….Uma ótima reflexão.

    Bjo

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