by Paula Pfeifer

Dicas para madrastas iniciantes

01/01/2018

Alô você madrasta iniciante que vai se aventurar em águas profundas e assustadoras! Bora bater um papo de amiga sobre alguns dos inúmeros desafios que você irá enfrentar assim que encarnar esse papel? Não vou mentir: não é para os fracos! E as coisas que você achará em português no Google sobre o assunto são água com açúcar demais pro meu gosto, prefiro posts mais vida real. Falam tanto na romantização da maternidade, mas a romantização da madrastaridade (existe isso? rsrsrs) é muito mais cruel.

As pessoas em geral – inclua aí a família, os amigos, a sociedade, etc etc – esperam de quem assume esse papel um sacrifício e uma generosidade e paciência que, muitas vezes, ultrapassam todos os limites da sanidade mental de um ser humano. É por isso que é tão importante conversar com quem já está nessa há um bom tempo para descobrir que não, você não é um alien e que não, seus sentimentos não são errados ou inadequados como você está imaginando!

Se você já passou dos 30, as chances de namorar alguém que já teve filhos são bem altas! Não é impossível ter uma vida pacífica se tornando uma stepmom, também não é fácil e vai requerer de você tempo, esforço, sacrifício e dedicação.

Não recomendo que você se case com alguém que já tem filhos se você tem pavio curto, não abre mão de várias coisas, é ciumenta, egoísta, possessiva, se magoa por qualquer coisinha ou se irrita fácil quando as coisas não são feitas do seu jeito. Apenas dê o próximo passo se paciência, generosidade, dedicação, abnegação e comprometimento fazem parte do seu repertório. Ah, e se você tiver certeza de que ele é o amor da sua vida, claro. 🙂

Vínculo a jato? Esqueça!

Você não começa a amar ninguém automaticamente. Vínculos são construídos com o tempo e com reciprocidade. Você e a(s) criança(s) são completos estranhos no início, e forçar a barra para criar um vínculo que ainda não existe só vai atrasar ainda mais as coisas. Relaxe, deixe fluir e não se esforce demais, porque eles percebem quando um adulto está desesperado por aceitação.

Aprenda a ser ignorado sem sofrer com isso

Às vezes você vai chegar em casa, dar oi e sentir que falou com as paredes. As vezes o pai está conversando com os filhos, você dá uma opinião, e parece que estava falando com surdos. Às vezes você compra um presente super legal, entrega, e recebe de volta um ‘ah ta‘. Às vezes você abre as mãos para dar um abraço e abraça o ar. Às vezes você fala com seu enteado e ele simplesmente não te responde. Não espere mensagens de aniversário, de Natal, de Ano Novo ou da data que for – se elas vierem, é lucro. Sei que é fácil falar ‘aprenda a ser ignorado sem sofrer’ porque dói horrores e, se você for uma boadrasta, fica sem entender o motivo. Mas é assim que a banda toca. Sofra o menos que conseguir com esses acontecimentos, e bola pra frente.

Aprenda a ser a última da lista, de boas!

Esse conselho não é válido para sempre, ok? Mas, pelo menos no início, aprenda que, quando eles precisam de alguma ajuda (carona, compra, dever de casa, etc) pode ser que cogitem até o porteiro do prédio para ajudar, mas você não. Não se ofenda com isso e aproveite a oportunidade para se colocar à disposição, caso tenha vontade/disponibilidade. A confiança e os pedidos de ajuda vêm com o tempo.

Qual é o meu papel mesmo?

Você não é mãe, nem tia, nem amiga, nem prima, nem babá do seu enteado. Você é a madrasta, e lamento dizer que esse papel tem regras confusas. Você não educa, você participa da educação. Você não estipula as regras (dentro da sua própria casa!), mas precisa tomar conta para que elas sejam seguidas. Você não é empregada, embora em muitos casos seja vista como uma. Você tem que ser de confiança, embora muitas vezes não confiem em você para tarefas bobas como cuidar sozinha da criança. Os limites do seu papel são complicados e devem ser construídos em conjunto com o seu marido. Ele é o pai, ele cria as regras. Mas não esqueça que você é um ser humano e também habita a mesma casa, ou seja, aquilo que a fizer sentir desconfortável demais precisa ser negociado.

Sofrendo demais? Procure terapia

Não tem nada de errado em buscar ajuda, muito pelo contrário, errado é não buscar e ficar sofrendo enquanto espera que as coisas se resolvam sozinhas. Um terapeuta com experiência no assunto pode te salvar de entrar em depressão ou acabar com o seu relacionamento.

Doeu demais? Fale com seu enteado!

Às vezes eles têm atitudes que, mesmo que não percebam e não tenham sido intencionais, nos machucam muito, muito fundo. Especialmente naqueles casos de madrastas que adorariam ter um relacionamento super próximo com seus enteados. Aprendi a duras penas que não falar só nos faz guardar ressentimento e a querer nos afastar. Não vale a pena! Fale. Uma conversa franca tem um poder curador maior do que qualquer outra coisa. Fale você mesma, porque tudo o que você pedir para o marido falar será visto com maus olhos e lhe fará ter que dar três passos para trás.

Relacionamentos são via de mão dupla

Não só madrasta-enteado, mas qualquer relacionamento. Tenha isso em mente! Nós recebemos o que damos, e vice-versa. Não dê esperando receber algo em troca, mas também não se acostume a apenas dar: carinho, respeito, gentileza e educação têm que vir de ambos os lados. Mão dupla, lembre-se disso.

Um pouquinho de egoísmo é bem-vindo

Se os seus enteados só aparecem nos finais de semana, enfie seu egoísmo no saco e ajude seu marido a estar presente e feliz na presença deles. Mas se você tem uma rotina puxada de guarda compartilhada 50%-50%, nada mais natural do que prezar acima de todas as coisas os seus momentos a sós com o seu marido. Vocês precisam disso! E ele precisa compreender o que esses momentos significam para você. É quando você restabelece seu vínculo com ele, namora na santa paz, faz planos, relaxa. Especialmente se você não tem filhos, eles são fundamentais no relacionamento de quem se casou com alguém que já tem.

Vá onde for convidada

Crianças têm muitos compromissos: apresentações de escola, das atividades extras, festinha de aniversário. Não compareça sem ser convidada apenas para demarcar território, pois isso é visto como uma agressão. E se essas situações lhe causam desconforto e lhe fazem sentir como uma completa outsider, respeite o que você sente e não vá. Ninguém vai morrer por isso, e seu marido precisa conhecer os seus limites.

Não se meta onde não for chamada

Briga de pai e filho. Fique de fora. Brigas com a mãe das crianças? De fora também. Discussões sobre o passado? Out. Reprimendas em adolescentes na sua frente? Vaze. Não se meta onde não for chamada porque a chance de sobrar para você ou de ouvir “isso não é da sua conta” é bem alta.

Aprenda a lidar com o ciúme

Tanto o que eles sentem de você, quanto o que você sente deles, quanto o ciúme da mãe, da avó, do resto da família. Faz parte. O ciúme é um sentimento humano que foge ao controle até da mais zen budista das criaturas. De repente você se viu numa situação recorrente em que a criança está fazendo tudo o que pode para chamar a atenção do pai para que ele esqueça que você está no recinto? Vá ler um livro, dar uma volta, tomar um banho. Mostre que você não sente vontade nenhuma de entrar nesse joguinho, e que ele consegue se dividir entre todos sem deixar ninguém de fora.

A frase mais odiosa de ouvir

Prepare-se! As pessoas amam dizer: “Ei, você sabia onde estava se metendo!!“. A verdade verdadeira? A não ser que você já tenha sido madrasta antes, não, você não fazia a mínima ideia de onde estava se metendo e nem imaginava que era milhões de vezes mais complicado e trabalhoso do que parecia. Se dê um desconto quando ouve essa frase, pois a maioria das pessoas não tem empatia conosco e nem é capaz de imaginar como é a nossa vida.

Ah, e tem mais uma!

Quase esqueço. A frase “o adulto é você” vai fazer sua veia da testa saltar algumas vezes. Especialmente em situações nas quais seu enteado age dissimuladamente e você que paga o pato. Aturar fodeback faz parte do pacote, mas não deve ser visto como algo natural, legal ou bonito. E nem é justo que seu marido exija de você comportamento exemplar 100% do tempo. Você é humana, minha filha!

E vale a pena lembrar

Os motivos pelos quais você se casou com ele. O tamanho do amor que você sente por ele. As qualidades incríveis que ele tem. Os momentos maravilhosos que passam juntos. Sei que às vezes é difícil focar nisso com criança(s) berrando, exigindo atenção e a rotina punk de uma casa, além dos problemas de $$ e tretas familiares. Mas são esses motivos que nos fazem lembrar que tudo valeu e continua valendo a pena, e que você continua nesse barco firme e forte. Força! Você consegue e vai aprender muito sobre si mesma durante essa jornada que pode durar o resto da sua vida.

Leia mais:

10 verdades brutais sobre ser uma madrasta

Tipos de madrasta 

Sobre as madrastas 

11 Hard Truths about being a stepmom

43 amaram.

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4 Comentários

  • Responder Diana 01/01/2018 at 9:29 pm

    Identificação de 200 %!!!!!! Sinto – me exatamente assim um sem número de vezes…

  • Responder Tatiana Lambert 01/01/2018 at 9:37 pm

    Você foi MUITO gentil na descrição da figura da madrasta… bora bater um papo sobre a real da “madrastidade? 😂😂 guarda compartilhada, uniforme e meia sujos de dar ódio, cuidar com chikungunya, e mais situações heavy metal.

  • Responder Raquel A. Cassoli 02/01/2018 at 1:23 pm

    Eu sou sou a mãe que teve a vida virada de ponta cabeça. Com duas crianças (uma de oito e outra de seis anos) vimos a vida ruir com a separação… especialmente porque com menos de um ano de separação o pai já estava com uma família nova e completa. ( veja só completamos 1 ano de separação quando a nova filha dele completava 3 meses- oi? Consegue imaginar o turbilhão vivenciado pelos filhos mais velhos ?) Digo que tudo isso que vc escreveu é muito verdadeiro, e dependendo das condições em que a separação ocorreu é preciso muita sensibilidade para ocupar este lugar dê madrastra. É preciso que em algumas situações a nova esposa do pai saia de cena, para que eles (pai e filho/s) possam ter seus momentos e vínculos preservados, para aos poucos poderem olhar para a madrastra com carinho e respeito que merecem. Infelizmente tem muitas que desesperadamente querem ocupar o lugar da mãe ou simplesmente não aceitam que tem que dividir espaço com os filhos. Parabéns pelo post, pela aprendizagem e compartilhamento. Beijos!!!

  • Responder Michele 04/01/2018 at 3:06 pm

    Como vc escreve bem ❤️. Saudades

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