Myself

Como tenho me sentido com o Implante Coclear

27/11/2013

IMG_6343

*Foto tirada dia 11/11 na ativação

Duas semanas de vida de cyborg já. Logo depois da ativação me deu uma tristeza porque a parte que vai atrás da orelha não parava quieta, caindo o tempo todo. Pensei que o IC me livraria desse tipo de perrengue, já que não precisaria de molde, etc. Aí fiquei com um tique nervoso de ficar conferindo a cada 30 segundos se ele estava no lugar. Algumas pessoas me disseram que eu deveria usar um molde para segurar, só que a idéia nem me passou pela cabeça já que, pela primeira vez em muitos anos, minha orelha direita ‘respira’. Me recomendaram a tal fita dupla face de peruca no grupo do IC no Facebook, mas minha fono pediu que ainda não tentasse isso porque ela é super forte, minha pele é tri sensível e, se cutuco a cicatriz atrás da orelha, ainda sinto alguma coisa. Obedeci – mas vou comprar pela internet. O pessoal da Politec Saúde foi maravilhoso e me deu o suporte que eu precisava (valeu, Alexandre!). Agora uso um earhook tamanho pequeno que segura melhor que o médio que eu vinha usando, e também tenho um snugfit pequeno para quando precisar de ainda mais segurança. A grande descoberta foi que as baterias recarregáveis, que tanto relutei em usar, são bem menores do que o compartimento que leva as pilhas normais, ou seja, dão maior estabilidade. Portanto, há uns três dias venho usando somente as recarregáveis. Aos poucos, vou me adaptando. O IC dá mais trabalho que um aparelho auditivo: toda noite é preciso desmontá-lo e colocá-lo dentro do desumidificador, colocar as baterias a carregar (e ficar de olho porque são 4hs de carga para não estragar) e pela manhã remontar e usar. Nada demais, mas demora uns dias até pegar no tranco. No primeiro dia em que precisei tirar o compartimento de pilhas normais, eu tremia!!! Que medo de quebrar o negócio…

Já percebi o quanto faz falta ter o suporte que eu preciso em Santa Maria. Já perdi a conta de quantas vezes fui a Porto Alegre. Deus ajude que logo Santa Maria tenha implante coclear porque é realmente muito chato e desconfortável estar a 4hs de estrada caso qualquer coisa aconteça – e comigo, sempre acontece!

A primeira coisa que faço pela manhã é colocar meu IC e meu AASI. Em alguns dias passei o dia todo só de IC para ver como era, mas não é legal porque preciso (muito) da potência que o AASI me dá do lado esquerdo e também porque, se o tiro, o zumbido vai às alturas. Noto que o zumbido do lado operado diminuiu, e acho engraçado que a única hora do dia em que lembro dele é quando levanto e vou ao banheiro – parece que a primeira levantada da cabeça do dia é que traz o zumbido serra elétrica de volta, mas pelo menos a duração agora é de uns 5 minutos. Assim que ponho o IC, a serra elétrica desliga.

A sensação que tenho é de que vivi por décadas num mosteiro budista e, de repente, me raptaram e me levaram pro centro de uma cidade grande histérica. Nos primeiros dias meu deslumbramento era tão grande que me senti bem, mas depois… já tive verdadeiros dias de fúria, de não sair de dentro de um quarto escuro e de precisar de remédio calmante para segurar o tranco. Meu cérebro obviamente ainda não sabe filtrar o que me enlouquece, e eu me sinto como um recém nascido reaprendendo a ouvir tudo. Não sei se vocês vão achar engraçado, mas eu acho: nos primeiros dias, ouvir passarinhos e os passinhos dos meus cachorrinhos era algo que me enchia o coração de felicidade. Lá pelo final da primeira semana, toda vez que ouço os passinhos dos cuscos minha veia da testa salta e, quando os passarinhos começam o berreiro matinal, meldels, quero pegar uma arma e acabar com todos. Rezo pelo dia em que meu filtro cerebral comece a funcionar!

O que mais me dá prazer é ficar sozinha no quarto, ligar a TV no Canal Sony e ficar ouvindo os seriados. Como as legendas são em português e eles falam em inglês, leio a legenda e fico esperando o que vou ouvir. Pareço uma idiota, me lembra de quando eu tinha uns 16 anos e seguia um ritual para assistir Dawson’s Creek. Eu AMO ouvir em inglês, cada palavra que ouço e entendo me sinto como uma rainha egípcia sendo abanada por lindos soldados musculosos num dia quente de verão. #aloka

Descobri que fazer xixi é como estar em frente às Cataratas do Niágara – o barulho é tão alto que nunca mais serei capaz de ir ao banheiro na casa de alguém, certeza. Até o barulho do teclado do notebook mudou pra mim. E barulhos que eu nem sabia mais que existiam me dão sustos todos os dias: o relógio da cozinha, uns gatos chineses que ficam balançando a mão, o ar condicionado, as pulseiras que gosto de usar, as portas dos armários. É descoberta atrás de descoberta, redescoberta atrás de redescoberta.

Meus amigos andam meio irritados comigo porque tô num momento só meu – quanto menos gente por perto, melhor me sinto. Tudo o que for me causar apreensão ou stress, evito. Já tive uns surtos em casa estilo ‘se alguém falar Paula outra vez eu quebro os dentes da frente!!!’ e me assustei porque sempre me considerei a pessoa mais zen da galáxia. Estou contando essas coisas todas porque acho muito importante dar a real. A mudança interior é imperceptível aos outros, mas nos deixa em frangalhos. E frangalhos emocionais são difíceis de lidar. Sim, já me sugeriram fazer terapia e sim, estou avaliando a possibilidade.

Mas nenhum dia de fúria supera o milagre de ouvir a minha voz com perfeição e riqueza de detalhes – agora eu falo sozinha o tempo todo (quando não tem ninguém por perto hahaha) e fico pensando alto em inglês também. Não faço mais esforço para falar. O Rodrigo Nunes tinha me dito que a gente fica com a sensação de que está berrando e é verdade, várias vezes já me pediram para falar mais alto e eu fico tipo ‘mas como assim já to berrando aqui e querem que eu berre mais que issssoooo‘.

Tenho pensado (olha a ansiedade aí) em fazer logo a cirurgia no ouvido esquerdo porque quero ouvir totalmente do jeito que ouço com o IC. Cada caso é um caso, eu tenho muita estrada pela frente, mas a verdade é que eu estou tremendamente feliz. É um milagre ter um sentido de volta graças à tecnologia, às mãos mágicas do Dr. Lavinsky e à dedicação das minhas fonos. Sinto como se minha vida recém estivesse começando, pareço uma adolescente pensando em tudo o que ainda quero fazer. Me dá taquicardia só de pensar. Quero ficar bem logo, mas não tenho complexo de perfeição– o que vier além do que já veio é lucro. Muita gente me pergunta ‘e aí, tá entendendo tudo?’. É óbvio que não. Às vezes levo ótimos sustos de ouvir algo e entender do nada – tipo ontem, eu estava no PC e escutei AMEAÇA DETECTADA, dito pelo querido antivírus. Fiquei rindo sozinha.

Sei dizer que não sou mais a mesma pessoa. Lembram quando eu dizia que o IC requer muita força e coragem de nós, além de requerer que estejamos bem da cabeça? É fato, para que tomemos a decisão de fazer a cirurgia. Mas o que ele requer de nós depois da ativação, ainda não encontrei as palavras ideais para explicar.

Mas não se preocupem: estou feliz, me sinto um milagre, acho que ganhei o maior presente do mundo e chorei de emoção o dia em que ouvi o carinha do hotel batendo na porta com a mão para me entregar um Sedex da Politec. Imaginem o que isso significa para alguém que não ouviu a própria mãe pedindo socorro no banheiro ao lado após um tombo há dois meses atrás.

Enfim: sinto que voltei a fazer parte do mundo de novo!!! E sinto um puta orgulho dessa trajetória toda!

90 amaram.

Você também poderá gostar

13 Comentários

  • Responder Cássio 27/11/2013 at 1:31 pm

    Tu simplesmente merece tudo o que quiser na vida! És uma guerreira! Beijo!!!!

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 28/11/2013 at 5:04 pm

      <3

  • Responder Lilian 27/11/2013 at 3:17 pm

    Que show, Paulinha! E que orgulho de você também! Muita coisa boa ainda vai chegar, você merece muito mais! Um beijão!

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 28/11/2013 at 5:04 pm

      <3

  • Responder candida carvalho 27/11/2013 at 3:53 pm

    Paula,estou feliz por ti,muitas coisas boas estão por acontecer…bjooo

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 28/11/2013 at 5:04 pm

      <3

  • Responder Bianca 27/11/2013 at 7:40 pm

    Paula, eu nunca comentei aqui, porque tendo a me afastar de coisas que me emocionam muito. Mas ao ler este post (chorando), decidi escrever.
    Minha mãe era surda, tinha “esclerose do ouvido médio”, começou a perder a audição com 16 anos, cada ano piorava um pouquinho e, junto com todos os outros problemas que tínhamos, ela foi se isolando do mundo… Não tínhamos dinheiro para uma cirurgia e meu pai, que podia pagar, simplesmente preferia gastar o dinheiro com outras coisas e isso tornava tudo ainda pior, pois alguém tinha nas mãos o poder de ajudá-la, mas não fazia, então imagino que ela sentisse como se não merecesse.
    Eu fico muito emocionada com a sua história e, apesar de não ser surda, consigo entender um pouco do que você sente, pois passei anos imaginando como seria se minha mãe pudesse ouvir melhor. Infelizmente ela faleceu há sete anos e não foi possível que eu a ajudasse.
    Eu dou mais valor a todos esses detalhes que você contou, o sentido da audição é quase sagrado para mim. E também entendo a sua raiva e desorientação em alguns momentos, minha mãe detestava que berrassem no ouvido dela e quando o aparelho externo ainda servia, às vezes ela desligava pra ter um pouco de paz! hahahah
    Espero que você se adapte cada vez mais rapidamente, quando for colocar o outro implante, que dê tudo certo. E que você ouça esse som da vida, que muita gente às vezes esquece o valor que tem!
    Fico feliz de verdade ao ver as pessoas realizando o sonho de ouvir e sei que minha mãe ficaria também, pois não era nada invejosa. 🙂
    Um beijo.

  • Responder thais ellen de souza 27/11/2013 at 8:11 pm

    Paula estou muito feliz por vc. Boa sorte nesta nova fase da usa vida. fica com Deus, bjs!

  • Responder Priscila 27/11/2013 at 8:43 pm

    Seus posts sobre o IC são fantásticos!! Sou professora e ja tive um aluno nesta situaçao, muito bom saber na real como é tudo isso e poder ajudar! Parabens!

  • Responder Caroline 27/11/2013 at 9:43 pm

    Tenho certeza de que todos os seus leitores estão mais do que felizes por você Paula! Nada melhor do que ver alguém (principalmente aqueles que merecem) realizando sonhos e fazendo conquistas a cada dia. Toda vez que você traduz seus sentimentos com relação ao implante em posts eu me emociono e imagino sua felicidade descobrindo desde pequenas coisas, que podem parecer normais para os outros, mas suas palavras nos fazem sentir sua emoção e a vivacidade com que enfrenta este novo desafio. Estamos sempre com você!

  • Responder Jackie 01/12/2013 at 1:01 pm

    Ler relatos como o seu me fazem refletir, como pequenas coisas que as vezes não damos valor podem mudar o mundo de quem nunca as teve!

    Maravilhosa a sua conquista :))

    Bjkas

  • Responder Jackie 01/12/2013 at 1:02 pm

    Ler relatos como o seu me fazem refletir, como pequenas coisas que as vezes não damos valor podem mudar o mundo de quem nunca as teve!

    Maravilhosa a sua conquista :))

    Bjkas

  • Responder Lia 05/12/2013 at 4:33 pm

    emocionante…parabéns!

  • Deixe seu comentário

    Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.