Sweetest Things

Carta para minha mãe II

16/07/2016

A verdade é que queria muito pedir o milagre da ressurreição para todas as pessoas que nos deixaram antes que fosse necessário. Por outro lado, percebo desde sempre que cada um de nós é a ressurreição possível. A memória que carregamos é uma forma de vida. Por isso, insisto que nos compete a tristeza mas também alguma celebração. Porque devemos celebrar a memória. Devemos sentir a alegria restante de termos tido alguém.” (Valter Hugo Mãe)

Eu costumava planejar por quais ruas de Copacabana nós andaríamos juntas quando tu ficasse bem e pudesse me visitar. E até hoje passo pelos lugares que queria te mostrar e penso em ti, mãe. A vida me engole todos os dias, as manhãs voam, as tardes evaporam na minha mão – queria ter tempo para sentar e ficar pensando em ti sem pressa, com ternura. No terraço do apartamento, onde tenho estrelas no céu e o Cristo iluminado, não consigo mais: era lá que eu sentava e ficávamos conversando no telefone dia sim, dia não. Às vezes respiro e minha alma dói inteira. Porque sabe que teu abraço não existe mais, que tua voz mora na minha memória, que teu jeito só perdura nas minhas lembranças e que o vento levou teu cheiro.

Com a tua morte eu me perdi de mim. Agora flano pelos dias, apenas. Não sei quando isso vai passar, todos me dizem que também passa, mas é um sentimento que não murcha. Hoje entendo e sinto que o agora é só uma passagem brevíssima, que somos penas de passarinhos que dançam ao sabor da brisa, que é insustentável viver sem amor. Caminhei por uma rua calma da Califórnia esta tarde contemplando anestesiada a beleza de ter me tornado uma pessoa legal graças a tudo o que vivemos juntas. Agora guardo para mim o que antes era dividido entre nós. As peças de onça nas lojas, os óculos enormes, os lenços estampados, os batons cor de boca – o que era alegria virou pó, porque a única pessoa com quem eu gostava de dividir se foi.

Achei que ainda viajaríamos muito, que um dia eu teria uma filha e ela iria gostar mais de ti que de mim. Achei que celebraríamos teus 60 e meus 40 como fizemos nos 50 e 30. Mas a brutalidade da morte me arrancou a delicadeza. Tu estás em mim, eu sei, mas em alguns dias sinto como se tu tivesses saído para jantar e de repente já fosse meio dia e nada do teu retorno. Te procuro, não acho, o corpo age como se tu fosses abrir a porta e entrar me chamando, mas isso não acontece e aí algo que não sou capaz de nomear percorre as minhas veias, me arde por dentro, me arranca o ar. E cada lágrima derramada parece que é tu passando a mão no meu cabelo. Passei tantos anos me preparando para a ideia de envelhecermos juntas e agora o passar de cada dia é uma sombra das possibilidades não concretizadas. Te espero nos meus sonhos, vem me visitar. Um dia voltaremos a ser uma dupla, não sei como, não sei quando. Só sei que sim.

127 amaram.

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14 Comentários

  • Responder Cybele Costa 16/07/2016 at 7:10 pm

    Paula quanta tristeza nas suas palavras… Nem imagino o tamanho da tua dor! Só peço a Deus que amenize toda essa melancolia. Tenho enorme carinho por ti, desejo te uma vida mais leve querida!
    Sinta-se abraçada!
    Beijos!!!

  • Responder Camilla caetano 16/07/2016 at 10:36 pm

    Querida Paula.

    Sem ter palavras como vhm ou como tu, meu comentário é apenas: um abraço apertado.

    Fique bem.
    Camilla.

  • Responder Martha Rocha 16/07/2016 at 11:54 pm

    Quanta dor se sente quando se perde alguém querido e amado, principalmente essa pessoasendo a mãe , aquela que nos deu a vida, amor, nos educou, nos aconchegou, nos repreendeu , nos preparou para a vida… A única coisa que mãe não consegue nos preparar é para a morte… Paula o tempo irá amenizar essa sua dor, pode ter certeza , mas tenha certeza também que o reencontro é certo… Mesmo que demore!!! Fique com Deus🙏🏻❤️💋

  • Responder Maria Cecília Couri 17/07/2016 at 12:17 am

    Chorei com voce

  • Responder Maisa Brauner Veladquez 17/07/2016 at 2:14 am

    Paula amada!!! Todos nós que amamos a Ttizzi sentimos muito a sua falta, claro não como você, mas Até hoje vou sozinha ao Suchi By Sam, sempre Brindo com ela como fazíamos todas as semanas na nossa pequena confraria…sem tristeza amada, só uma enorme saudades que um dia, podes ter certeza que vamos nos encontrar. Beijos!!!

    • Responder Paula Pfeifer Moreira 17/07/2016 at 12:07 pm

      Que lindo saber q tu faz isso! Saudades! Obrigada por todo teu amor e companheirismo durante a doença dela, e ainda mais, durante o tempo em que ela esteve bem. Beijos!

  • Responder FERNANDA FARIA BELO 17/07/2016 at 6:43 pm

    Paula, me reconheci nas suas palavras, quando perdi minha mãe em 2010. Eu procurava minha mãe nos lugares por onde andava. Fui e sou muito abençoada por sempre sonhar com ela. É quando nos reencontramos, eu acordo feliz.O luto tem várias fases. Passei por todas. Hoje já não procuro ela por onde ando, sei que não encontrarei. Mas quando eu olho pra mim, encontro ela dentro do meu coração. Ela está sempre comigo, tudo o que eu vivo ela participa. Já não sinto a mesma tristeza de antes, pois sei que ela nunca mais vai sair do meu coração. Paula, continue escrevendo suas cartas, pois chegará o momento que você vai perceber que não precisará mais delas. Desejo muito paz para você! Um beijo!

  • Responder Vanya Pasa 17/07/2016 at 8:25 pm

    Paula, que difícil hein? Não há como ler esta carta e não me emocionar… só posso te dizer que você vai superar, porque você tem muitos recursos internos, sua história de vida nos dá a certeza disto. Engraçado, hoje eu e minha mãe, conversamos sobre a Tize, nós aqui em Belo Horizonte, também nos pegamos as vezes incrédulas…realmente a Tize, tão cheia de vida, se foi muito cedo. Como entender? São mistérios, sem uma lógica. O que é certo é que vocês estão temporariamente afastadas, mas vão se encontrar e se curtirem muito ainda. É necessário seguir em frente,.. força e boa caminhada. Bj

  • Responder Fabíola Couto 26/07/2016 at 10:40 am

    Olá Paula, perdi meu pai recentemente (12/06/16), e me conforta muito ler seus textos, muito do que você descreve perfeitamente de sua dor, é sentido em meu coração. Saiba que você me ajuda muito compartilhando seu luto e sua saudade. Vejo que a vida de quem perde alguém que ama muito, acaba um pouco do brilho, tem aquele sentimento de “nunca mais vai ser a mesma coisa” e não será… mas eu te desejo apesar de tudo, força para seguirmos em frente mesmo com o coração faltando um pedaço enorme. Grande abraço!

  • Responder Nana 30/07/2016 at 10:57 am

    Toda vez que leio seus textos sobre a falta da sua mãe me falta o ar só de pensar que todos passaremos pela dor da perda em algum momento da vida.
    Somente Deus pode te compreender completamente e te dar o conforto para enfrentar o período do luto.
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://nanaeosamigosvirtuais.blogspot.com

  • Responder eduarda 04/08/2016 at 2:26 pm

    Essa dor é realmente sufocante… real de doída…. dói na carne…
    Mas que bom ver que vc teve um relacionamento tao lindo com sua mae… nao pense que foi breve… pense que foi suficiente…
    daria tudo para ter 10% dessas experiencias com minha mae… Fique bem, Paula!!!! bjo

  • Responder Mare 11/08/2016 at 12:26 pm

    Perua, é bem isso mesmo o luto. Quando perdi meu pai, me perdi de mim, sai do eixo. As pessoas acham que o luto é chorar, mas é muito mais complexo que isso. Precisamos falar mais sobre o luto. Acho que só agora 1 ano e 4 meses depois que meu pai faleceu to voltando pro meu eixo, mas tenho certeza que a Kabbalah me ajudou muito a me reencontrar. Espero que você consiga voltar ao teu eixo em breve. beijão <3

    • Responder Paula Pfeifer Moreira 11/08/2016 at 4:04 pm

      Perua
      Me da o caminho das pedras da Kaballah, please?

      Tu falou a coisa mais verdadeira que alguem ja me disse sobre isso tudo, luto nao é chorar. Eu to num momento de entender e ressignificar a minha vida inteira, e tá dificil, pra nao dizer impossível, só melhora nos dias em que a falta de tempo e o trabalho me engolem. Se paro pra pensar, nossa, abre um buraco no peito e na cabeça. Não sei como a gente consegue.

      Um beijo com saudade imensa da nossa amizade, torço e sempre torci MUITO por ti! <3

  • Responder Aline Régia 15/09/2016 at 2:04 am

    Menina, que coisa linda! Li chorando… Graças ao Pai ainda tenho minha mãe comigo, mas fui lendo e tentando imaginar o tamanho da dor e meu peito doeu junto… Que Deus e o universo te ajudem nessa caminhada e que a dor se transforme em força e a saudade tenha um sabor doce. Beijos!

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