Myself

Carta para minha mãe, 1

18/05/2016

Hoje é dia 18. O dia do mês que não quero que chegue, porque marca mais uma parcela de tempo sem ela. Hoje acordei, abri a janela e, enquanto via a chuva cair lá fora, chorei por duas horas pra ver se ajudava um pouco. A parte mais estranha é ficar tentando lembrar das coisas que tenho medo de esquecer. Coisas banais como o formato do dedo do pé, o toque da mão, o contorno dos dentes, a textura do cabelo, o lóbulo da orelha rasgado quando meu irmão era bebê – era o direito ou o esquerdo, já nem sei. Acho que vou transformar o dia 18 num dia nosso, um ritual pra tentar chegar perto do aconchego e do sossego que eu sentia na presença dela. Por enquanto ainda é só dor, é só cabeça voando e tentando esquecer, medo do escuro, pavor de ficar sozinha e uma sensação medonha de que logo vou perder os poucos que me restam. Choro escondido, choro repentino, choro infantil, choro com risada, choro matinal, choro no banho. Eu sei que vai passar. Só não sei quando.

A Dani (amiga que parece um anjo e que cuida dos sites pra mim) me relembrou sobre o rascunho desse post; confesso que já tinha esquecido, isso foi escrito em Santa Maria nos dias em que fiquei lá depois que a mãe faleceu. Mas esse rascunho de carta foi o start para um ritual que me faz um bem enorme e me ajuda demais: escrever cartas à mão para ela, como se ela fosse mesmo lê-las.

mãe

 

Mãezinha, meu grande amor

Sinto meu corpo inteiro anestesiado. Estou deitada bem no lugar no qual tu passaste os últimos 7 meses lutando. Meu desespero é enorme, doído, horrível. Não paro de me perguntar como tu aguentou tanto tempo nessa cama, sem falar nos tantos meses de hospital. Fui invadida por perguntas nas quais nunca pensei antes. Procurei teu cheiro nas roupas e não achei – o cheiro dos últimos tempos já não era mais teu. Procurei teu corpo e não encontrei. Procurei tuas bochechas sempre rosadas e quentinhas mas elas não existem mais. Procurei teu peito, teu abraço e teu sorriso, que sempre foram meu aconchego. Agora preciso entender essa coisa louca e que não faz o menor sentido: tu não estás mais aqui.

Comecei a rebobinar. Nossa última conexão verdadeira foi quando tu me visitou no Rio pela primeira e única vez, em dezembro de 2014. Tu me chamou no quarto, pediu para fechar a porta, pediu para me abraçar e começou a me contar do desespero de saudade que sentia – e eu tinha saído de casa há apenas duas semanas. Ficamos um tempão chorando juntas, desatinadas. Parecia que ali nosso laço havia começado a se quebrar pela distância, de alguma forma. Passei meus primeiros meses no Rio te relatando cada passo meu, mostrando cada roupa, cada sapato, cada penteado novo, na tentativa de que assim tu me sentisse mais perto. Acho que não consegui. Não sei como vou me sentir quando voltar para a casa na qual tenho tão poucas lembranças tuas. Aqui é mais fácil, te acho em cada canto, em cada objeto, em cada cômodo, em cada janela. Hoje fui fechar a janela do nosso quarto e foi como se ouvisse tua voz me mandando fechar direito.

Passei minha infância e adolescência com medo de que a vó morresse, e me apavorava a idéia de ter que ir num velório ou enterro de alguém que eu amasse. Lembra que eu te dizia que jamais iria? Quando te vi ali, fiquei com medo de chegar perto, de ter um colapso, de que aquela fosse minha última memória contigo. Quando te toquei minha alma gelou: era real. Fiz o contorno dos teus lábios, do teu nariz, do teu queixo, das tuas orelhas e da tua testa tantas vezes quanto pude. Segurei teus dedos o máximo que consegui, na tentativa de jamais esquecer o toque das tuas mãos. Mãe…

Tenho certeza absoluta de que te escolhi para ser minha mãe nessa vida. Quando olho para trás e penso em tudo o que passamos juntas, em todas as dores que dividimos, em todas as gargalhadas que demos, as infinitas voltas de carro, nossos finais de tarde no cinema, nossas idas a Rivera, nossos verões em Capão, nossas viagens…sinto uma facada no peito de saudade. Imaginava que envelheceríamos juntas, que tu serias a avó mais louca e apaixonada de todas, que cobriria uma neta tua de oncinha da cabeça aos pés e iria amá-la ainda mais do que me amava, que caminharíamos na praia, que almoçaríamos no Celeiro pra tu tentar encontrar famosos, que tu apertaria o Pikachu daquele teu jeito, que os pratos de Dubai enfeitariam alguma comemoração nossa.

Mas a verdade é que senti um vazio profundo de alerta uns dias depois da tua entrada na UTI em junho. Naquele momento senti que havia algo errado. A médica mandou que eu me preparasse para o pior, mas é claro que a Tizi não ia se dar por vencida e lutou como uma leoa para sair daquele hospital. Os meses de hospital te mudaram completamente, mãe. Achei que tua gana cresceria em casa, mas teu espírito cansou. Preciso te deixar ir e lá do outro plano vais caminhar outra vez e vencer todas as limitações físicas da vida terrena.

Ainda preciso elaborar essa dor.

Ainda acho que é tudo um pesadelo.

Ainda espero receber uma mensagem que diz “Te amo mais que o mundo“.

99 amaram.

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8 Comentários

  • Responder Juliana Malafaia 18/05/2016 at 5:43 pm

    Simplesmente me emocionei, sem palavras. Acho que como você, não saberia lhe dar com tal perda, logo a minha que é “PÃE” (exerce os dois papéis lindamente).
    Acho que não existem palavras no mundo que te confortem, mas a certeza que ela foi seu melhor exemplo de pessoa e te amou infinitamente já alivia. Morro de medo desse dia, mas é a única certeza que temos. Por isso temos que dizer que amamos, mostrar nos atos e sempre estarmos presente, quem sabe lá o dia de amanhã.
    Você é forte, a veja com alegria, ela não te quer triste, tenha certeza. Um beijão!

  • Responder Nana 18/05/2016 at 6:52 pm

    Estou sentada aqui lendo seu post e segurando o choro preso na garganta… que dor infinita que deve ser a que você está passando. Não tenho palavras para te escrever: só oro a Deus para que Ele derrame o conforto que você precise e dê te forças para seguir em frente. Porque, em uma hora assim, só Ele mesmo para segurar na mão da gente e nos dar o colo que nos falta.
    Bj e fk c Deus
    Nana
    http://nanaeosamigosvirtuais.blogspot.com.br

  • Responder Renata 19/05/2016 at 10:00 am

    Não sei o que falar..muita força ai…
    Com certeza vcs se escolheram e isso muda td.
    Um laço forte assim nao se quebra fácil, só muda o laço..pode ficar aparentemente mais frouxo. Mas é só aparente.
    Os espíritos afins estão sempre por perto. Vc só naõ vê. Ainda é recente, ela deve estar se acostumando com a nova realidade. Que sua saudade nao seja de desespero, mas da ansiedade na certeza do reencontro. E essa ansiedade vai passar com o tempo, ficando só a certeza.
    Força ai…qq coisa to aki.

    Bjs

  • Responder milena machado 19/05/2016 at 2:33 pm

    Ai, Paula, dói. Uma dor lá dentro. Sem explicação!

  • Responder Elbio Pegoraro 19/05/2016 at 2:34 pm

    Querida Paulinha, estou em lagrimas e sem palavras. Perder alguém que amamos é uma das piores provações que devemos passar na vida, mas espero que consiga encontrar conforto nas lembranças e nos sentimentos que para sempre guardará no seu coração. Sua mãe (é) foi uma grande amiga, jamais esquecerei do seu abraço aconchegante e seu sorriso brilhante. A ultima vez que nos falamos ao telefone, ela pediu meu endereço que faria-me uma visita em SP, porque estava com saudade de mim. Bjs millllllllll…….

  • Responder candida 19/05/2016 at 4:35 pm

    Sem palavras …perdi minha mãe …..que me ajudou a criar minha filha…depois de minha separação e a dela com meu pai…15 anos juntas…sem ela 9anos …agora eu e minha filha sozinhas…muito dificil…achei que iria surtar….mas depois de um ano isso ameniza e fica a saudade e lembranças….força….bjooo

  • Responder Martha Rocha 19/05/2016 at 6:45 pm

    Paula segurei o choro para não me desmanchar com suas palavras.
    Perder alguém que amamos é realmente muito duro , e isso que vc relata que tem medo de que o tempo apague as lembranças que você tem de sua mãe … Não se preocupe, nada, nem mesmo o tempo apagará o que teve amor.
    Eu perdi a cinco anos meu irmão mais velho , foi uma dor horrível, sinto sua falta até hoje, mais sei que de lá de onde ele está, olha por nós. E que no futuro o reencontro é certo.
    Que Deus conforte seu coração e traga o sossego de que necessitas para seguir adiante.
    Um beijo carinhoso💋

  • Responder caroline scheid 19/05/2016 at 8:51 pm

    Mais uma vez, fiquei sem palavras..

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