Maquiagem Post das leitoras Viagem

A vida no Golfo – e o elogio ao exagero

20/12/2010

Este post é colaboração de uma convidada especialíssima – e, segundo ela, leitora inveterada do Sweetest: Aline Vieira da Mota, Vice-Cônsul da Embaixada do Brasil no Kuaite (ou Kuwait, para quem preferir).

“Morar no Oriente Médio é mesmo uma experiência pra se contar pros netos. Lembro que logo que cheguei aqui, fiquei surpresa com a minha falta de estranhamento diante das mulheres completamente cobertas e dos homens vestidos de branco. Talvez por ter me formado em Relações Internacionais, a percepção do diferente como algo normal já estivesse construída em mim. Foi apenas com o passar do tempo, com a observação dos detalhes cotidianos da vida dessas pessoas, é que fui me dando conta da enorme distância que nos separa delas. Especialmente em relação às mulheres, percebo isso com mais clareza. Foi um choque a primeira vez em que me dei conta que nós, mulheres ocidentais, aos olhos de muitas das mulheres árabes, somos tão coitadas quanto pensamos que elas são, por viverem oprimidas em seus casamentos, ou por não terem voz em seus países. Para elas, coitadas somos nós, que “casamos mal” e, por isso, temos que trabalhar. Como a renda média de uma família kuaitiana (gente, eu moro no Kuaite!!) é muito (MUITO!) alta – a secretária do meu dentista vai trabalhar num Porsche!! – , o fato de não se ter pelo menos um anel de diamantes parece uma verdadeira tragédia aos olhos delas. Pode parecer fútil, mas na verdade é muito interessante.

É sintomático que as grandes marcas internacionais todas tenham filiais em países árabes há mais de trinta anos, embora muitas apenas agora estejam chegando ao Brasil, ou que as principais clientes da Maison Dior sejam sauditas. Num país em que não há livrarias ou teatros, o consumismo alcança números inacreditáveis. Não que o consumir em si seja ruim, mas o fato de que ele representa (e, sim, representa!) uma espécie de compensação para as frustrações da vida, me faz pensar.

Tenho um pouco a sensação de um “mimado coletivo”. É como se eles não lidassem com frustrações, ou não precisassem lidar, porque o dinheiro cria mecanismos para se compensar qualquer coisa. Assim, há uma falta de amadurecimento generalizada da população. Obviamente há exceções, e esse fenômeno não ocorre igualmente em todos os países da região, mas tendo estado na maioria dos países do Golfo, e em alguns outros do mundo árabe, posso afirmar esse tipo de coisa com certa convicção. Na verdade, é até natural que essas compensações ocorram. É compreensível que uma mulher que vive coberta, sempre de preto, da cabeça aos pés, queira encher de cor a única parte visível de seu corpo: o rosto. E aí acontece o exagero. É impressionante como o exagero é a regra por aqui.

Maquiagens com pele carregada, muita boca, muito olho, cílios artificiais e lentes de contato são facilmente vistas às três da tarde de uma quarta-feira em um shopping qualquer da cidade. As mulheres que não são obrigadas por suas famílias – ou por si mesmas! – a andarem com a Abaya (aquela roupa preta que só deixa o rosto de fora), têm a estranha mania de combinar roupas roxo fluorescente com oncinha e grandes acessórios dourados, para passearem de dia, pela orla da praia. As ocidentais são facilmente reconhecidas, pois parecem flores murchas contaminando a opulência da moda árabe – que a bem dizer, é a mesma moda ocidental, só que usada toda junta, ao mesmo tempo.

Eu, que sempre gostei de maquiagem, e no Brasil sou considerada até meio perua, aqui sempre escuto, das mais diversas mulheres, coisas do tipo: “Por que você não se pinta? Você devia se produzir mais! Desse jeito seu marido vai olhar pra outra” mesmo que eu esteja arrumada para ir a um casamento. A verdade é que a maquiagem “natural” do mundo árabe, equivale, em grande medida, ao nosso make de festa. O make de festa é o nosso “alegoria de escola de samba – destaque de carro”.  Não me entendam mal, isso não é uma crítica. Cada um é feliz como quer e podemos aprender muito com elas. Afinal, quem é que não AMA aquele olho da Jade de “O Clone”? É fato que elas sabem como usar um delineador para valorizar o olhar. E é isso: acho que toda brasileira deveria aprender a fazer um olhão árabe matador para usar naquelas ocasiões ultra-especiais em que a mulher tem, simplesmente tem, que se sentir sexy.

Quem se interessa por maquiagem árabe pode dar uma pequisada na Internet. Bassam Fattouh  (http://www.bassamfattouh.com) é uma boa referência. Ele é um maquiador libanês muito talentoso, que tem trabalhos muito bonitos e não tão exagerados. Para quem está em busca de inspiração, vale a pena conferir!!

A Aline, como toda brasileira vaidosa, também ama maquiagem e moda. E decidiu escrever um blog sobre seus achados e impressões! Confiram: www.makesdaflor.blogspot.com

PS: por causa de um post no blog da Aline, ontem de noite fiz algo que queria fazer há tempos. Comprei uma balança no site das Americanas. Projeto 2011 com vergonha na cara, aí vou eu!

2 amaram.

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34 Comentários

  • Responder Patrícia 20/12/2010 at 9:26 am

    Achei interessante as mulheres árabes acharem que nós somos “coitadas” por termos que trabalhar. Deve ser super difícil viver em um país com tantas diferenças culturais, mas o importante é sempre respeitar o outro.

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 20/12/2010 at 10:10 am

      sim, e somos coitadas por não casarmos também!!
      choque cultural enriquecedor!
      beijos

  • Responder alda 20/12/2010 at 10:03 am

    Parabéns Paula por publicar um post tão interessante e obrigada a Aline por compartilhar conosco essa experiência incrível!
    bjkas

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 20/12/2010 at 10:09 am

      também achei incrível esse post!!
      beijos Alda!!

  • Responder Paula 20/12/2010 at 10:23 am

    Adorei a matéria, cultura é sempre bom!! Beijos!

  • Responder arlei 20/12/2010 at 10:26 am

    De tudo isso, e levando em conta que os conceitos de felicidade são muito particulares a cada um e a cada cultura, o que mais lamento ler é “um país sem livrarias ou teatros”, já que o mundo árabe foi detentor de uma das mais ricas culturas do mundo, e valorizava muito mais a literatura que o mundo ocidental – aliás, o maior ícone desse patrimônio era uma mulher, a princesa Sherazade! Talvez a combinação entre más interpretações religiosas e excesso de poder financeiro esteja destruindo algo de valor inestimável.
    Parabéns à Aline pela análise precisa, e à Paula por postá-la onde merece ser lida!

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 20/12/2010 at 10:34 am

      Arlei!
      além dessa maravilhosa colaboração da Aline aqui no Sweetest, temos a tua maravilhosa contribuição no ar hoje lá no Crônicas! http://www.cronicasdasurdez.com
      😉

  • Responder Lia 20/12/2010 at 10:56 am

    Adorei o post ! Tão bom saber sobre outras culturas, principalmente as mais distantes de nós brasileiros. Paula, foi um ótima idéias que tu poderia transformar em tag do blog!
    E foi uma surpresa saber da falta de livraria ou teatros no Kwait.

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 20/12/2010 at 12:49 pm

      super adoraria que as leitoras que estão pelo mundo colaborassem com essa tag!!!
      beijossss

  • Responder Patrícia Maia 20/12/2010 at 11:12 am

    Paula,
    Ótimo post! Muito impressionante a comparação entre as visões de uma cultura sobre a outra!
    Parabéns novamnte para vc e para a Aline!
    Bjs

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 20/12/2010 at 12:48 pm

      Que bom que vcs gostaram!!
      🙂
      bjobjo

  • Responder Fê Costta 20/12/2010 at 11:13 am

    Olá!

    Seu blog é muito bom, adorei!

    Quero aproveitar para te convidar a conhecer meu blog também e participar da Promoção 1001 Seguidores. Como prêmio você pode levar para casa uma das agendas 2011 recheadas de fotos dos mais de 40 países que visitei! Se quiser, traga também seus amigos e leitores! 😀

    Aguardo você! 🙂

    Bjos!

  • Responder Angélica Maia 20/12/2010 at 11:39 am

    Paula…parabéns pela iniciativa de dar espaço para experiências culturais as mais diversas! Alineee Flooooorrr…..parabéns querida!! Amei o post!!!

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 20/12/2010 at 12:48 pm

      quem tiver sugestões para outros posts assim, é só me avisar!
      🙂

  • Responder Aline Vieira da Mota 20/12/2010 at 3:45 pm

    Gente, muito obrigada pelos comentários positivos!! Fico muito lisongeada. Queria agradecer publicamente pelo convite da Paula, e pela paciência dela, porque esse post demorou, hein?!.. era pra ter saído em outubro, e só saiu agora!!

    Beijos!

    Aline.

    http://www.makesdaflor.blogspot.com

  • Responder Bel Salemme 20/12/2010 at 3:52 pm

    Adorei a iniciativa de mostrar um mundo tão diferente, Paula. Parabéns à Aline pelo texto e a você por abrir esse espaço no seu blog. Acho super importante rolar esse respeito, não deixar que os conceitos pré desenvolvidos como a infelicidade no casamento, o exagero ou o consumismo exacerbado façam com que a gente não perceba toda a riqueza da cultura árabe…tenho uma amiga de família Libanesa e é impressionante as histórias que ela me conta das visitas ao Líbano, das diferenças culturais, de como ela foi xingada na rua por ter uma tatuagem em árabe citando Deus (isso é considerado um desrespeito por lá)e por aí vai…é importante manter sempre os olhos abertos e ver tudo o que o mundo tem a oferecer, sem se prender àquilo que a gente toma como certo…
    Aqui na França eu vejo coisas diferentes todos os dias, e vejo que sou eu a estranha no ninho, e se tem alguém que tem que se adaptar ao fato das francesas conseguirem sair de saia e meia calça fina num frio de -10 sou eu, =P
    beeijos

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 20/12/2010 at 4:00 pm

      Bel, agora é a tua vez de escrever um post especial francês!!
      q tal?

      • Responder Bel Salemme 20/12/2010 at 9:21 pm

        Aaah, será? Pode ser né…vou ver se consigo escrever algo com coerência suficiente pra ser publicado, quem sabe, né? =) Mas ó, uma dica de blog que fala muito (e muito bem) da vida na França e da Europa é o http://www.13anosdepois.com =)

  • Responder aline Vieira da Mota 20/12/2010 at 3:54 pm

    PS: LisonJeada – é com j!! hhehe! Foi malz!

  • Responder Monica 20/12/2010 at 4:21 pm

    Perfeito post! Leitura interessantíssima!

    bjão

  • Responder Adriana Severo 20/12/2010 at 4:34 pm

    Belo texto! Por mais que compreenda e admire a linha de pensamento e ponto de vista das árabes, quando leio algo a respeito, me situo e fico feliz porque é sempre bom relembrar que temos a liberdade de ir e vir, quando quisermos, e acima de tudo a liberdade de pensar. Incentivo para quando reclamamos da correria do dia a dia.
    Parabéns Aline pela sensibilidade na percepção e nas palavras e parabéns Paula pelo espaço.
    Feliz Natal a todas!

  • Responder Cristiane 20/12/2010 at 4:36 pm

    Maravilhoso post, enriquecedor! Parabéns!

  • Responder candida 20/12/2010 at 4:59 pm

    Paula,adoreiiiii ! Graças a Deus ,nasci no Brasil e no rio de janeiro,bjssss Devemos ,valorizar nossas conquistas…..

  • Responder Greize 20/12/2010 at 7:32 pm

    Amei!!!!Amo ler, amo História e amo Culturas.Tenho uma amiga que morou no Senegal,Egito e Líbano falou mto sobres as mulheres de lá , que são mulçumanas,é outra visão mesmo.
    Diziam a ela, o tempo todo, sobre maquiagem nos olhos, ela era casada.Ela aprendeu viu.O olhar..rsr
    Parabéns Paula, Blog cult!!!.
    P.S: Sobre a balança, não sobe antes do natal ok.rsrs

  • Responder Gilmara Viana 20/12/2010 at 7:54 pm

    Nossa , achei o post super interessante.É impressionante como as visões mudam dependendo do referencial , não é mesmo ? As diferenças culturais são fantásticas

  • Responder matita 20/12/2010 at 8:51 pm

    Adorei o post! Du para ficar a conhecer um pouquinho do Kuwait. Muito interessante.
    Mas sem livrarias nem teatros, fica um pouco triste, não?

    amatutare.wordpress.com

  • Responder Marilena Silveira 21/12/2010 at 9:45 am

    Muito interessante o post, amei as informações!!

    Parabéns pela iniciativa!

    Bjus

  • Responder Janaina Sousa 21/12/2010 at 12:06 pm

    Choque de Cultura,

    Muitas pessoas crêem que esse choque de culturas sucedem apenas quando saímos de Brasil, porém a realidade é bem diferente.
    No início, quando ainda fazia vôos domésticos, me deparei exatamente com essas diferentes culturas, na manhã eu estava em Porto Alegre e ao final do dia em Fortaleza. Quem é de um estado e viaja a outro percebe esse “choque”.
    Me recordo, em uma ocasião que fiz um desses primeiros vôos para o Nordeste( não me lembro bem a cidade) aconteceu o seguinte:

    Eu estava esperando a comissária e o pessoal da limpeza terminarem seus trabalhos antes de embarcar os passageiros e duas senhoras da limpeza que estavam na gallley diziam uma pra outra:

    (1 senhora) Pó po pó?
    (2 senhora respondia) Pó pô.
    (Eu) Heim?
    (1 senhora) Rá butô glai?
    (2 senhora respondia) Rá butei.
    (Eu) Oi?

    Pensei comigo mesma, onde eu aperto o botão traduzir? Agora parece fácil mas ouvir isso ser dito na velocidade da luz é outra coisa. Mas depois de alguns vôos, estudos e mucha cacentracão entendi.
    Uma dizia a outra: Pode pôr o pó?
    A outra respondia: Pode pôr,
    Eu então pensava: Estão falando café.
    E elas diziam:
    Já colocou o Glaide ?
    A outra respondia, já coloquei.
    Eu, estão falando daqueles bom ar para ambientes.

    Se existe estas mudanças de cultura aqui imagina lá fora. E acabei de me lembrar do meu primeiro vôo pra Alemanha quando me deparo com um pequeno e singelo nariz na janelinha da galley… Mas isso é outra estória.
    Para a queria Aline e para aquelas que lêem o adorável blog da Paula e estão no Oriente Médio fica a dica de uma make que conheci por essas bandas aí se chama Luscius, é uma marca Paquistanesa e é ÓTEMA, me atrevo a dizer que está próxima a Mac porém, com preço super camarada.

    http://www.iloveluscious.com/

    Beijocas e como dizem por aí, Flores no vaso Divas.
    Janaina

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 21/12/2010 at 3:10 pm

      eu ri muito com o ‘diálogo imconpreensível”
      rsrsrsrsrs
      beijossss

  • Responder Laura 21/12/2010 at 2:49 pm

    Adorei o relato! Sobre essa história de elas terem pena de nós ocidentais, já tinha ouvido falar no livro “A Lei do Mais Belo” (aliás, um ótimo livro, recomendo!)… além da história de casal bem ou mal, elas afirmam que também somos escravizadas, pois hoje em dia é praticamente um dever de toda mulher ocidental estar magra, depilada, maquiada, bem vestida, boa mãe, boa esposa, boa funcionária, e que isso é também uma forma de escravidão. Sabe que pensando friamente elas também tem razão? Esse compromisso com a eficiência não deixa de ser uma espécie de burca, não é?

    • Responder Paula Sweetest Person Blog 21/12/2010 at 3:09 pm

      arrasou na pensata, lauretss!!

  • Responder Merielen Sabaini 21/12/2010 at 4:17 pm

    Bah, eu leio a news do Sweet todos os dias, mas quase nunca comento, eu confesso… Mas este post me inspirou… Como é interessante conhecer mais de outros povos através de quem pode vivenciar esta delícia que são as diferenças culturais… Texto maravilhoso e bastante isento… Adorei! Parabéns gurias!!!

  • Responder Natalia 22/12/2010 at 7:34 am

    Uau, adorei o post. Achei ainda mais interesante esse questão da diferença dos pontos de vista das mulheres do ocidente e do oriente médio, muito bom a percepção de uma certa compensação pela falta de poder através do exagero no consumo. Fez-me lembrar daquelas donas-de-casa norte-americanas de classe média-alta que volta e meia aparecem em reality-shows que estão com dívidas no cartão até a alma, mas vivem presas ao modelo dondoca-bem-casada.
    Eu sou 100% feliz por viver no estilo ocidental, por mais que eu me sinta obrigada a me depilar, a fazer escova inteligente , etc, eu tenho a escolha de não fazer. Eu simplesmente posso não fazer essas coisas.Faço porque gosto, porque seu também que isso é uma arma de sedução, fazer-me bela é fazer também poderosa e não escrava.

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