Planejando essa Eurotrip numa tarde de verão ensolarada, me deparei no Google Maps com uma cidade chamada San Sebastián, sobre a qual eu nada sabia. Fiquei curiosa, até porque estava atrás de um destino para quando saísse de Madrid. As pesquisas me mostraram que ela é considerada a cidade mais gourmet da Espanha – fica bem no norte, no País Basco. A título informativo, como a cidade é mezzo basca, mezzo espanhola, são duas línguas faladas por lá: euskera e espanhol. Por isso, em euskera, a cidade se chama Donostia. E foi escolhida para ser, em 2016, Capital Européia da Cultura.
Pegamos um ônibus da Alsa em Madrid às 07:45 da manhã e chegamos às 12:45. Foi a viagem mais estranha de ônibus que já fiz em toda a minha vida. A passagem custou 55 euros por pessoa. O ônibus tinha uma wi-fi poderosa, apenas três passageiros por fileira (2 poltronas na direita e um sortudo que ia sozinho na esquerda) e uma ônibus-moça que oferecia comida, bebidas e petiscos o tempo todo! Sério. Lembro que ela começou com o café da manhã (tinha até a famosa maquininha Nespresso), depois passou sanduíches, depois passou frutas secas, depois passou bombons, depois passou sei lá o que, e além disso tudo ficava à disposição lá atrás junto com todas as bebidas imagináveis, embora agora eu não lembre se rolava álcool. Tinha até uma seleção de jornais e revistas. Confesso que fiquei boquiaberta com todo aquele atendimento VIP numa viagem de busão! Quando passamos pela cidade de Vitoria-Gasteiz, já no País Basco, começou a dar pra ter uma idéia do que viria pela frente. Da rodoviária até o hotel o táxi deu 17 euros e a paisagem era estonteante, mas nem um centésimo do que encontraríamos a seguir. Chegamos na Pensión San Ignacio e nos deparamos com um quarto de bom tamanho e ótimas camas mas, se me permitem uma primeira dica, eu diria o seguinte: ele é bom para aqueles que querem caminhar pra queimar as calorias que vão ingerir durante a estadia na cidade. Se pudesse mudar algo, teria me hospedado na Parte Vieja, porque assim economizaria quilômetros de caminhadas e vários comprimidos de Dorflex. Não vejam isso como reclamação, o hotel era ótimo e ainda custou a bagatela de 33 euros por pessoa por dia num quarto triplo. E o dono é casado com uma brasileira e foi extremamente simpático e solícito conosco. The point is: o estômago mandava e as pernas obedeciam. Mas como sofreram, as pobrezinhas…
Porque decidi ir para lá? Porque AMO comer, e a melhor coisa pra fazer estando em San Sebastián é “ir de pinchos“, ou seja, saborear deliciosos e variados tapas. A cidade tem vários restaurantes com estrelas Michelin, por sinal. Diferentemente do resto da Espanha, no País Basco o ritual envolvendo os tapas (pintxos) é outro: você entra no bar e se depara com um longo balcão abarrotado de, no mínimo, trinta tipos diferentes. Basta pegar um prato e escolher quais vai abocanhar, no melhor estilo self service. O garçom anota ‘de olho’ o que você consumiu, e os preços começam em 1,75 cada. Uns quatro pintxos equivalem a uma ótima refeição, e ainda dá pra escolher as opções quentes, se quiser. Na verdade ‘ir de pintxos’ vira um esporte estando lá. É só nisso que você pensa: o próximo bar, o próximo vinho a ser escolhido, a próxima sobremesa a ser degustada. Espírito de gordo, alma de gordo, bem por aí. Ai, que saudade!!! Quem segue viagem pra França (como eu fiz) quase chora lembrando da comida e dos preços ridiculamente baratos se comparados com a meca das facadas nos rins dos turistas, Paris. Com 1,75 em Paris não dá nem pra tomar um cafezinho num café beeem fuleiro. De chorar! Depois de San Sebastián, fiz um pit-stop em Biarritz e segui para uma semana em Menton, última cidade da Côte D’Azur antes da Itália. Arrependida? Capazzz….queria arrancar os cabelos por não ter ficado em San Sebastián-Biarritz assim que coloquei os pés no hotel.
Quem topa cacifar uns 150 euros (sem bebidas, ó ceus) pra provar o menu degustação dos TOP-TOP-TOP restaurantes da cidade, anote esses nomes: Arzak, Akelare, Martin Berasategui, Urepel, Juanito Kojua, Mugaritz, Zuberoa. Não tive coragem, infelizmente, embora a fatura do Mastercard discorde. Mas aprendi que todo chef de cozinha que se preze já passou uma temporada em San Sebastián - e até me caiu os butiá do bolso quando descobri que meu conterrâneo (e mais djóven que eu, por sinal) Daniel Menezes foi pupilo do Barastegui e do Alex Atala. O tipo do currículo ‘pra quem pode, não pra quem quer’. Invejei! A rua Fermín Calvetón é a mais lotada de jatetxea, restaurante em euskera. Engraçado que passar uns dias nessa cidade me causou uma espécia de vontade súbita de aprender a cozinhar, tô até planejando noites de pintxos em casa quando a Eurotrip chegar ao final. Oremos! Com fé na Nossa Senhora das Causas Impossíveis, hehehhe.
Antes que me acusem de pecadora (hello, gula) e de gordjinha sem-vergonha porque só falo de comida, deixa eu contar que San Sebastián tem uma puta praia. De encher os olhos, com água gostosa, morninha, verde cristalina com direito a caranguejos-bebê passeando faceiros na orla. Na verdade são várias ao longo da Baía da Concha, uma melhor que a outra, de areia e não de cascalho, graças a Deus (a bunda agradece e as costas idem). Tem um cassino para aqueles que curtem jogo, embora aos meus olhos ele seja bem pobrildo. Os surfistas e os wannabe surfistas vão curtir que a cidade fica colada em Biarritz (que tá virando hype e é deliciosa) e Mundaka. Boa idéia é montar a base lá mesmo e fazer bate-voltas em vez de ficar pulando de hotel em hotel. Igrejas que vão do gótico ao barroco, praças com muito espaço pra sentar e tomar um café fazendo people watching. Tudo dá prazer em San Sebastián, e quando lembro dos cinco dias que passei lá me dou por conta que me senti como se estivesse flutuando o tempo todo. A vista é de matar, a comida é de matar, o mar é de matar… pense em colocá-la na sua lista de “lugares para conhecer antes de morrer”.
Os vovôs e vovós espanhóis não são bobos e fincaram bandeira. É meio chocante se deparar com velhinhos de quase 100 anos andando de patins (!!!) na beira da praia e quase te atropelando. Ou com senhorinhas que na minha cidade já estariam numa clínica geriátrica saracoteando bem animadas com as amigas pra lá e pra cá, emperiquetadérrimas e felizes. Olhando para eles só conseguia pensar que, se me for permitida a dádiva de chegar até a terceira idade, é assim que gostaria de viver. Eram jovens em corpos de idosos, isso sim. Um espírito e um gosto pela vida dos quais sempre vou me recordar. San Sebastían é cortada de cabo a rabo por ciclovias e o povo anda mais de bicicleta do que de carro, dá gosto. Nós quase não usamos o transporte público, na verdade somente num dia pagamos uns 8 euros pra fazer um city tour num ônibus hop on hop off – outra opção é um trenzinho chamado Txu Txu que custa 4,50 euros. É uma cidade para ser apreciada essencialmente a pé, e a acessibilidade é um ponto forte: até mesmo do calçadão à beira-mar para a areia tinha elevador. Palmas pra eles!!!
Para baladas: Kabutzia, Muelle, Bataplan e La Rotonda. Não deixe de experimentar a sidra basca que, no primeiro gole, lembra um vinagra de maçã – depois melhora, juro! Se aguentar e tiver tempo, vá ao Monte Urgull e ao Monte Igueldo. E perceba que a influência antiga das férias da família real naquelas terras está presente nos casarões e palacetes à beira-mar, que de decadentes não têm nada!
Um programa que gostei muito foi bater perna no antigo porto e depois entrar no Aquário. Não indicado para claustrofóbicos, diga-se. Passamos um par de horas procurando Nemo. E achamos!
Meus restaurantes favoritos foram Casa Alcalde e A Fuego Negro. O primeiro, 100% rústico; o segundo, 100% metidinho e com tapas mais sofisticados. Para uma cidade que foi totalmente queimada nada menos do que onze vezes (ficava no caminho entre França e Espanha, olha o azar) San Sebastián está inteiraça, limpa, atrativa, convidativa. Só digo uma coisa: VÁ! Talvez seja boa idéia fazer uma dieta antes ou levar roupas um número maiores pra garantir, mas vá. Cá estou eu em Paris escrevendo esse post e suspirando de saudade. E o pior é que peguei uma mania horrível: em qualquer restaurante que vou já digo “pfffff, não chega aos pés de San Sebastián“. Mesmo o gourmand mais babaca e burro volta de lá se achando o último pintxo do balcão.
Por último, uma dica para quem gosta de história da moda: pertinho, em Getaria, fica o Museo Balenciaga.















Eu tenho uma amiga que morou em San Sebastian por 6 meses fazendo intercambio e ela adorou… Aproveita a eurotrip querida!!
Ai, Paula, esses seus diários de viagem são demais e dão água na boca literalmente. Pra mim, o ponto alto de uma viagem sempre é a gastronomia, amo conhecer a cozinha local, desde o pé-sujo (amo!) até os restaurantes chiques (quer dizer, até onde o bolso pode pagar, hehe). Ainda bem que comecei a ler o post já lanchando (bolo de cenoura com chá, longe de serem deliciosos tapas, haha), assim passei um pouco menos de vontade… San Sebastian, nas suas palavras, ficou irresistível!
OI Paula!
Legal teu relato sobre essa cidade. Nem sabia que existia, e agora já fiquei loca de vontade de conhecer. Aproveita a eurotrip, tomara que os próximos destinos sejam tão deslumbrantes como foram esses.
Pra qual cidades da Itália que tu vai?
Beijos!!!
San Sebastián com certeza estará incluso no meu mochilão pela Espanha, mas por motivos arquitetônicos, hehehe, o Kursaal, do Rafael Moneo, um Centro Cultural e uma Sala de Espetáculos localizadas por lá, você viu? Mas saber que a comida é ótima (e barata) inspira ainda mais, hehehe!
Beijinhos!
Nossa que post gostoso de ler, tem lugares incríveis que nem imaginamos e com preços acessíveis:)
[...] de dias maravilhosos em San Sebastián, foi a vez de conhecer Biarritz, no sudoeste da França. Apesar das duas cidades estarem pertinho [...]
[...] foi parar lá no Viaje na Viagem porque o Riq (a íntchyma) gostou do combo de posts sobre San Sebastián e [...]
OI PAULA!!! Estou indo pra San Sebastián!! Fiquei fuçando na net até que encontrei o seu blog com essas dicas deliciosas rsrsrsr… Vou procurar o restaurantes que vc indicou… Não vejo a hora, to até com vontade de aproveitar a praia será que é limpa?
um abraço
Rubria
[...] Sebastian/Donostia, que saudade. Quem leu o post com as dicas da cidade ou já conhece, sabe do que tô falando – ela é considerada a cidade mais gourmet da Europa [...]