“Depois de quatro meses e meio em Paris, aceitei o convite da sweetest blogueira do Brasil e vou contar sobre como é morar numa cidade turística e experimentar um pouco esse “monde de la mode”. Algumas histórias eu já compartilhei no Retalhos, mas aqui vão minhas avaliações bem pessoais do cotidiano francês e dos clichés. Voilà!
*a Dani pronta para entrar no desfile da Chanel
=> Bonjour, Monsieur.
A primeira coisa que aprendi foi a cumprimentar as pessoas, a dizer “bom dia” (ou “bonsoir” depois que já escureceu). Não se trata de simples costume, mas de um traquejo sócio-cultral que não só demonstra educação (ora, não se chega-chegando em alguém, interrompendo…), mas delimita um espaço entre as pessoas, o mínimo de confiança e tempo necessários para se estabelecer um diálogo. É a “politesse”, um distanciamento em respeito ao outro. Em qualquer lugar, a qualquer hora: “bonjour, madame ou monsieur”, e então a gente inicia uma conversa.
=> “Il faut oser parler”
Mas como iniciar uma conversa depois do “bonjour”? Como superar as dificuldades do sotaque, não travar a língua? Confesso que fiquei mu-da muitos dias. A maioria dos franceses não têm paciência (claro que alguns mais legais tiveram!) assim que percebem que tu é estrangeiro e, já começam falando (ou sugerindo) o inglês, sure. Eu insisto no francês, fico vermelha, erro. Desistia às vezes, claro.
Mas depois desse tempo aqui, e de uma amiga de mais de 80 anos que fiz num Café no 5ème (bairro da Sorbonne), acho que aprendi a lição. A Anne-Marie Mercier me disse uma frase que jamais vou esquecer: “Il faut oser parler” – É preciso ousar falar para aprender. Serve para aprender francês e para muitas coisas na vida. A gente deve ousar: falar, aprender, sonhar, ir adiante! Né?!
=> Savoir-vivre
Morar em Paris é muito diferente do que tirar férias aqui. Se você vier (ou já veio) como turista, vai ver, sim, como a cidade é “la plus belle”, fácil de andar, cara, e lotada de cafés e restaurantes. Mas tem muito mais a se saber sobre Paris e os parisienses do que a Torre Eiffel, o foie gras e os queijos e o mau-humor dos garçons ou das pessoas em geral (que embora tão comentado, existe, sim).
Olha, não conheci outro lugar em que as pessoas aproveitam tão bem o dia e que fazem fazer valer a expressão “savoir-vivre” (saber-viver). Ela traduz muito a vida dos nativos, que contamina os turistas e por estes é contaminada também. Sabe, quando podem, eles vivem bem as horas de lazer. Eles curtem seus hábitos. Por exemplo: aproveitar qualquer hora livre nos parques, no sol (quando tem) ou nos cafés e restaurantes – fumando e bebendo drinks (ou rosé ou café, claro).
E o mais interessante, tu pode olhar para o lado que NINGUÉM vai estar te observando. Porque cada um está curtindo onde e com quem está. C’est cool!
Outro aspecto desse jeito genuíno de bem-viver é a destreza de fazer as refeições e/ou lanchar em qualquer lugar e a qualquer hora do dia. Ninguém repara se você abrir sua mochila e tirar sua baguette ou marmita, seja na Place des Vosges ou à beira do Sena (os europeus em geral fazem isso). Mas aqui é na-tu-ral.
=> la mode, la mode
Além de ser o berço da moda e a cidade onde ocorrem as “fashion weeks” mais consagradas do mundo, aqui é uma aula de moda e comportamento todos os dias. As ruas, as vitrines das grandes maisons (Chanel, Valentino, Dior, sim, nossos sonhos!), e as oportunidades mil, como ir em uma exposição da área (sempre tem alguma) ou todas as outras, que ajudam qualquer um a formar um senso estético.
Mas é nas ruas que a gente percebe a autenticidade das parisienses, o tal “je ne se quoi” (não sei o quê”), o estilo único das francesas, que a meu ver é resultado da cultura de moda já consolidada e vivenciada (o post sobre o jeitinho das francesas fica para a próxima, né). E embora pareça quase sempre que estou num editorial de moda, não é porque todo mundo é bem vestido ou com roupas de marca. Longe disso.
O que eu percebo é que as pessoas são autênticas (falei sobre isso aqui), elas vestem o que querem, como se sentem bem. A maioria das mulheres vestem peças básicas, clássicas e discretas. Fogem do exagero, do excesso, do brilho (e dos tênis – a nao ser turistas, quase nao vejos. Nem lojas para vendê-los!). O que é muito diferente do nosso “sex appeal”.
Claro, o gosto se desenvolve desde cedo. As crianças de 3, 4 ANOS!! andam de “foulards” e lenços (até os meninos) nas ruas… é tão fofo. Dá para ver que aqui se aprende a importância das roupas na nossa identidade.
Mas o “monde de la mode” vai além: as fashion weeks movimentam vários pontos da cidade, com de-ze-nas de desfiles. Eu pude acompanhar duas delas desde que cheguei: a de Haute-couture (alta costura), que foi no início de julho, e a de Prêt-à-Porter, que aconteceu há pouco (27/09 a 05/10).
Como vim para cá para fazer minha pesquisa sobre blogs de street-style e também trabalhei como reporter Uol Estilo Moda eu fiquei na porta dos desfiles registrando a movimentação. Mas tive a oportunidade de ver algumas apresentações-de-sonho, como o desfile Chanel (alta-costura) e até nosso brasileiro Pedro Lourenço nesta última edição, dia 29/09.
O que eu fiquei sabendo e algumas coisas que eu já sabia sobre as fashion weeks?
** Como no Brasil, ou em qualquer fashion-week, o público é seleto e reduzido (exceto Chanel, que faz o maior desfile, com uma primeira fila com centenas de pessoas no Grand Palais): só entram convidadas/os (clientes, compradores, editores e repórteres consagrados), o que contribui para o estigma de exclusividade da moda.
** Algumas marcas, porém, já deixam a plaquinha de “STANDING”, caso os lugares da platéia não sejam completos pelos convidados. Aí, os apaixonados e curiosos de plantão entram. Mas essa fila também é normalmente enorme e disputada pelos anônimos.
** Embora os desfiles aconteçam na mesma semana, as marcas fazem eventos independentes, pela cidade inteira (galerias, hotéis de luxo, no Jardin de Tuileries e até no Grand Palais), e não há um local de encontro dos fashionistas a não ser a porta dos desfiles.
** O que mais existe em frente a um desfile são fotógrafos: profissionais e amadores (e “turistas-piolho”). Há os que estão trabalhando para os veículos, que não têm credencial, e ficaram só para fotos de street-fashion, como era o meu caso nesta última edição para o Uol Moda, há os blogueiros-profi, mas há também dezenas (sim!) de curiosos com câmera na mão, que estão ali para fotografar modas, modismos, exageros e celebridades entrando ou saindo dos desfiles. É um de-ses-pe-ro!!!
** Conheci atores de Hollywood e gente do “showbiz” porque quando se forma um bolo de “fotografantes” se trata de alguém conhecido.
Porque qualquer um de nós pode produzir imagem e conteúdo para publicar, a moda e a moda de rua na web viraram febre na última década. Os blogs se popularizaram, (o blog Sweetest por exemplo), o meu, o seu, a gente vive isso… Mas em particular na última Paris Prêt-à-porter printemps-été 2012 vi esse cenário acontecendo, “lotado” de fotografantes e bloggers. Conheci meninas que viajaram de outros países (Suécia, Itália, Suíça, Inglaterra…) para estar ali. Ou para conseguir uma informação, ou a melhor foto ou para, quem sabe, ser fotografada?
Sim, porque todas as pessoas – dos convidados aos “fashion-papparazzi”- se vestem de uma forma muito original, exuberante. Alguns diriam, aí no Brasil, extravagante ou exagerada.
No fim, é fácil ver que todo mundo está querendo compartilhar alguma coisa. Falar e Ouvir. Fotografar e ser fotografado. E isso faz parte do movimento do mundo de hoje. Tinha muito mais que grifes ou diferentes jeitos de vestir. Vi pessoas e uma ânsia de ver, de ser visto, de (se)mostrar, de fotografar, de registrar – o que não é novo, mas que está saturado.
O mundo pode ter muitos problemas mais urgentes, mas esses estilos ou jeitos carregam um dado importante, uma fala: “queremos visibilidade, queremos mostrar algo, ou temos algo a mostrar”.E nossas roupas são (ou tem sido) o suporte para este grito. Não é mesmo?
“Merci” pela chance ocupar este espaço, Paula. Je vous embrasse,
PS: Que delícia esse post, me senti de volta em Paris. Aproveita muito aí!
















Adorei o post,por que esse povo ….sofre de mau – humor? bjo
Acho que faz parte do charme francês…rsrsrs
Beijo,
Morry ao saber que a Dani é orientada pelo Maffesoli!
Tenho lido tantos artigos dele e sobre ele… e agora ainda me deparo com esse post de uma orientanda dele?!!! Isso é muito cabalístico!!!
AMEI!
Um bapho, né?
Dani rocks!
Que honra este post aqui no blogs!
Gurias… acho que o turismo também contribui para um pequeno mau-humor. Mas oh, é mito também, viu? Nao são todos, nem em todos os lugares.
Bom, se quiserem podem me contatar. Tem o caminho já! beijos.
TRÈS CHIC, Paula tem que ter estes posts sempre. Material maravilhoso, fotos lindas , c
olaboradora de primeira, parabéns.
Eu morri também ao saber que e a Dani é orientanda do Mafessoli!
Tive as mesmas impressões com relação à Paris no que diz respeito as pessoas… Mas a moda, especialmente a moda, amei especialmente esta parte do post! Muito dinâmica, um tanto crítica, deixa algo nas entrelinhas… demais!
Eu acredito que o “mau-homor” frances deve-se, muito, ao fato deles viverem na cidade mais tuística do mundo. Fato esse que implica conviver com turistas que nao ligam e nao respeitam costumes, regras sociais, cultura em geral… que acreditam que seu dinheiro lhes da liberdade de fazerem e agirem como bem entendem.
Os frances em especial têm uma conduta social muito particular e rígida. Em relação a etiqueta, ao respeito ao espaço público e ao direito do próximo, ao modo de se vestir, etc.
Ja cansei de ver cenas em Paris de turistas, principalmente brasileiros, russos… “novos ricos”, que acreditam que seu dineiro e o que basta e nada mais, em lugares muito tradicionais e chiques, se comportando de forma inadequada e sendo repreendidos pro locais, ate mesmo sendo mandados embora!
Imagina morar em um lugar onde todos querem tanto ir mas nao se dao ao trabalho de, pelo menos, aprender e respeitar a cultura e a forma de vida local? Tudo bem que o turismo promove vantagens econômicas, mas acredito que os turistas deviam repensar um pouco sua postura em relação a isso.
Adorei o post! Compartilho de algumas opiniões, hehehe, como a falta de educação de muitos franceses, a falta de paciência com toda e qualquer língua que não seja o francês, mas, principalmente, como as francesas estão sempre lindas e maravilhosas usando apenas uma roupinha básica… Mas é bem isso mesmo, autenticidade, dá o brilho especial no look!
Beijinhos!
Estive lá em abril 2011, ameei e quero voltar p ficar mais tempo p apreciar mais a cultura francesa, conheci uma surda linda francesa…ela me ensinou tantas coisas boas, os franceses são mto relax toma vinho e come banquete na rua, na praça, me impressionava c a simplicidade deles.
Bon nuit!!
Amei poder partilhar de tantos comentários de um lugar tão lindo. E descrito de maneira tão simples (e como sempre o menos é mais) achei encantador. Mesmo que sejam mal-humorados, temos que admitir:- são únicos. Agradecida pelas ilustrações e descrições, me senti junto com você.
Parabéns pelo post, realmente encantador!
Paris e os franceses são fascinantes, a bagagem cultural é vasta e possuem um jeito todo especial de viver, de apreciar a culinária, a moda, as artes… Busco constantemente inspiração neste estilo tão simples e ao mesmo tempo tão cheio de informação, um dia chego lá!
Obrigada por esses comentários lindos!
Vale a pena vir a Paris mesmo e conhecer os frances para além dos clichês. Escrevi essas primeiras coisas, a pedido da Paula, mas há muitas outras sobre o jeito de morar, de comer e de viver deles. Já tem algo no meu blog, mas vou postar mais! Visitem também!
um beijo! Dani! <3
delícia mesmo o post! morei em paris por um ano e meio e sou francófila de carteirinha, então vou arriscar um comentário:
não posso concordar mais quando daniela escreve que ha uma grande diferença entre conhecer a cidade como turista e como habitante. paris não é considerada a mais bonita do mundo à toa nem inspira tanta gente sem motivo, mas ta longe de ser perfeita e pode sim causar grandes decepções. mas sou daquelas que acha que às vezes basta apenas dar uma chance pra que ela nos mostre seu outro lado, não o dos monumentos inesquecíveis e das paisagens de tirar o fôlego, e sim o da art de vivre (mais que o savoir, na minha opinião), de tentar apreciar cada minima coisa do dia-a-dia, de descobrir a beleza nos detalhes e, se por acaso eles não tiverem nenhuma, inventar, decorar – que é o tal do je ne sais quoi! rs sei que vou soar babona e bem exagerada, mas é que no caso de paris, só tem uma solução: il faut oser aimer!
Manuela,
Ótimo comentário e o “il faut oser aimer!” foi excelente. O post da Dani me fez sentir saudades, mas a Paris que conheço e amo é a que você descreveu. É acordar tomar meu café e ir para o Jardin du Luxembourg, ficar algumas horas sentada e saborear a vida e me perder em meus pensamentos ou mesmo andar pelas ruas sem destino, já que assim cada esquina passa a ser uma nova descoberta. Visitar o Louvre sem pressa devorando suas coleções. Pegar o TGV ir para uma cidade próxima passar o dia e voltar.
Não sou babona, mas apenas segui a terceira lei de Newton “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade” – Deixe que Paris mostre o seu outro lado gentil, educado, prestativo e ouso dizer hospitaleiro e vocês também vão se apaixonar por ela e por mais louco que possa parecer você passa a se sentir amada como se Paris também fosse apaixonada por você.