A Morgana, proprietária da loja Coisas de Oncinha, tem duas coisas importantíssimas em comum comigo: somos ambas formadas em Ciências Sociais e apaixonadas por estampa de oncinha. A diferença é que a Morgana transformou sua paixão em negócio! Confiram abaixo como tudo aconteceu.
“Sou de Joinville, Santa Catarina, e vim de uma família com bons recursos materiais, mas com uma veia alemã fortíssima que grita inconscientemente a doutrina luterana onde “só o trabalho dignifica o homem“, e “Deus gosta de quem trabalha FORTE“. Por isso, foi meio um choque quando aos 17 anos resolvi prestar vestibular para Ciências Sociais (hãn? Serviço Social?). A família já me imaginou na miséria, e coisas do tipo. Acostumados a ver a filhinha mais nova tirando nota 10 em tudo no colégio, sendo aluna prodígio, etc, eles tinham certeza de que eu seguiria uma carreira tradicional que me traria retorno financeiro. Administração, Direito e Engenharia Civil eram as apostas.
Quando fui para Curitiba na UFPR estudar, apenas a minha mãe deu apoio. Eu ficaria 4 anos apenas estudando, pois a grade de horários não permitia um emprego formal. Mas, o apoio era aquela coisa de mãe mesmo – no fundo a decepção era imensa. Afinal, na época (e ainda hoje) quase ninguém sabiae o que um cientista social faz, você sabe bem… O campo é limitado, e a licenciatura sempre é o fim comum e único. Entrei na graduação obstinada a não ser professora, pois não é o que combina com o meu perfil. Tanto é que não fiz a licenciatura. Fiz a faculdade em tempo recorde, e fui um exemplo de aluna. Sempre me dediquei imensamente, entrei para o PET logo no primeiro semestre devido às notas excelentes que conquistei, e fui bolsista do PET até o fim da graduação (o que me auxiliou intelectualmente, pois eu ganhava um salário razoável para apenas estudar e produzir). Meu foco nos estudos sempre se dirigiu mais para a Sociologia, e desde o começo meu interesse sempre caiu sobre as Relações de Gênero. E, assim, me formei em 2008 com honras, diploma de melhor aluna, e melhor monografia do ano.
Mas o que esse blá blá blá cheio de “falta de modéstia” (eu não sou assim na vida real, viu?) quer te mostrar Paula? Que mesmo com tudo isso, eu me formei e no dia seguinte não sabia o que fazer com o meu canudo. Para os professores e colegas, o meu caminho estava claro. Todos diziam: a Morgana tem entrada garantida em qualquer mestrado que quiser, e com bolsa de 1000 e poucos reais, ainda. Ou seja, todos já haviam traçado meu caminho, inclusive minha família que agora começava a me apoiar pois viu o meu “sucesso” como estudante da graduação. Só que eu estava cansada da vida acadêmica, e sentia-me presa no mundinho das teses e discussões, que, por mais que sempre fôssemos a campo, é limitado. Eu queria testar o conhecimento sociológico na prática, e não na análise do campo, apenas.
Contrariando tudo e todos, não entrei para seleções de mestrado, e fiz um currículo tipo ser-humano-normal e saí por aí. Em empresas, em agências de emprego, distribuindo meu bizarro currículo acadêmico (bizarro por não ter nenhuma experiência profissional). E, claro, sem nenhuma ajuda para ter cabide de emprego, pois na minha família todo mundo tem que se virar sozinho para crescer…
Não consegui nenhuma vaga como socióloga, claro. Na minha cabecinha sonhadora, queria uma empresa que buscasse um profissional que analisasse mercados, a sociedade, tendências, com foco no humano e nas suas relações, obedecendo as diferenças e particularidades. Que fosse um profissional que visse o mundo de maneira mais ampla, não apenas seca e de forma mercadológica. Mas onde eu iria conseguir isso? Pensava que só numa grande empresa, talvez. Que enganooo! Por fim, acabei indo na cara e coragem para uma entrevista de emprego numa indústria de cosméticos para uso profissional (cosméticos para uso em clínicas de estética, dermatologistas, etc). A vaga era para o setor administrativo, mas eu estava decidida a convencer quem quer que fosse que eu via um uso para a minha formação dentro daquela empresa.
A moça que me entrevistou – por sorte! – era a dona da empresa, uma economista com idéias revolucionárias e cabeça aberta. Ela conseguiu entender o que eu queria, e juntas vislumbramos o que os meus estudos sobre mulheres, relações de gênero, sociedade, etc, poderiam contribuir para uma empresa que trabalhava com público feminino, desejos, anseios e necessidades desse mercado altamente consumidor e crescente. Quando comecei a trabalhar, comecei também uma pós em Marketing, onde fui extremamente bem sucedida. E pasme: os professores (todos doutores) eram sedentos por conversas nos corredores comigo sobre temas da Sociologia. Eles ficavam indignados por que nós, sociólogos e sociólogas, não estávamos contribuindo com o mercado, e com uma análise teórica forte desse mercado, para posterior ação nesse mercado. Minha resposta sempre era clara e sucinta: nós, Sociólogos, não somos ensinados a enxergar o mercado. Somos apenas ensinados a viver numa bolha, demonizando o mercado e qualquer relação capitalista.
Contribuí muito para a empresa onde trabalhei, unindo as duas áreas: a Sociologia e o Marketing. Fiz análises, fiz ações, que um profissional apenas de Marketing não faria. Não é bairrismo ou defesa da classe, mas por mais defeitos que a graduação em Ciências Sociais tenha, eu acredito que nós aprendemos uma forma de pensar que vai fundo no foco, e fundo na análise do problema, e isso nos ajuda imensamente na ação prática, por incrível que pareça.
Hoje, uni vários destes conhecimentos, e resolvi dar uma reviravolta na minha vida: estou com a Coisas de Oncinha. Ela também não nasceu à toa. Não nasceu da Moguinha que gosta de oncinha, da Morgana que estudou sociologia ou da Morgana que estuda marketing. Nasceu da profissional que sou hoje, que consegue reunir várias tendências e perspectivas diferentes e HUMANAS e transformá-las em ação prática. Foi uma idéia e uma ação racional abrir a loja, foi um nicho explorado e analisado. E devo tudo às minhas duas formações: Sociologia e Marketing.”
PS: como vocês devem imaginar, já sou cliente da Coisas de Oncinha desde que ela nasceu!















Nem preciso dizer que como cientista social e amante de moda, fiquei super orgulhosa com o post né? Precisamos aparecer mais e deixar de sermos confundidas com as assistêntes sociais!!! Super concordo que precisamos sair das teorias e da vida acadêmica como única forma de emprego e pensarmos mais o mercado. Adorei a ideia de pós em marketing! Parabéns!
eu tbem adorei Isabel, e fiquei bem tentada a fazer!
bjos,
Sobre aprender na faculdade a viver numa bolha: todo mundo aprende assim, Morgana, não é só os cientistas sociais, não.
é vero!
aqui no Brasil nos ensinam muita coisa errada mesmo!
beijos,
[...] Read the original here: Profissão: cientista social [...]
Adorei o post! Sou estudante de ciências sociais num universidade pública de SP. Ciências sociais em si já é bem voltada para o mundo acadêmico, numa universidade pública nem se fala, e eu realmente não nasci para teses, papers, mestrados… É sempre bom ver que eu não sou a única que pensa assim e nem a única do meio que adora moda e afins ;]
Oiee tudo bem, to amando esses posts sobre Profissão, faz um sobre a profissão de esteticista/maquiadora/cabeleireira. Bjus.
Dica anotada!!!
Adorei o post! Minha história é bem parecida com a da Morgana. Sou assistente social e sei o quão difícil é quebrar esse rótulo de que deve-se ser uma comunista ativa para mudar o mundo. Apaixonada por Sociologia, gente, e maquigem, ainda estou tentando encontrar um caminho para que eu consiga conciliar minhas paixões.
Ale,
Vou tentar um post sobre a profissão maquiadora com uma que eu admiro horrores!
Acho que vai inspirar todo mundo!
Bjoss
A Mog é uma linda, uma fofa! “Conheci” na época que ela trabalhava ainda nessa indústria de cosméticos que ela citou
Sempre muito atenciosa, meiga, tentando sempre ajudar e se superar.
A loja está sendo um sucesso e ela merece, merece muito!
Amei o post!! Que vontadezinha que deu de fazer uma pós em Marketing,hein? iahiuhaiuhaiua,gostei mesmo!
Brigada pelo post e pelo depoimento,meninas!
=*
Eu gostei muito de saber mais sobre Ciencias Sociais. Parabéns a Morgana e sucesso!
Joguei no google “cientista social salário” e achei seu link, acho que na 3° página. Acho que eu precisava ler isso… Comecei agora a fazer Ciências Sociais na PUC e como imaginava, to apaixonada pelo curso, tenho facilidade e é tudo que sempre amei estudar… O problema mesmo é o mercado de trabalho e quanto a isso fico perdida e … acho que você me ajudou um bocado… Não que eu vá trabalhar na área de cosméticos, rsrs, nem fazer pós em marketing, mas saber que posso ir seguindo outros caminhos próximos ao das Sociais.
Beeijo!
poxa, adorei o post.
soh mesmo um economista pra entender um cientista social.
muito obrigada paula, pela oportunidade.!
Seu blog é muito bacana mesmo, parabéns e sucesso hoje e sempre!
Já comprei na loja da Morgana e o que me surpreendeu foi o… carinho! Brinde, cartãozinho escrito a mão, um tratamento humano numa compra virtual. Parabéns guria! Adorei tua história!!!
Estou no primeiro período de ciencias sociais, amando, mas sempre senti falta dessa visão não acadêmica da coisa! Mesmo na hora de escolher eu já pensava nisso, mas mesmo assim resolvi arriscar… Essa história e um exemplo e inspiração.
E, como outras tb falaram, e mto bom saber q não se e a única do meio a gostar de moda/beleza/etc.
@tamicb óia, cunhada: http://sweetestpersonblog.com/2011/04/10/profissao-cientista-social/
Encontrei o blog quando procurava algo mais sobre esta profissão e ADOREI !!!!!!!
Parabéns Paula pelo blog e Morgana pela quebra de paradigmas.
Cara amiga eu gostei muito do seu comentário! E praticamente isto que estou a procurar queria pedir licença e pegar algum trecho do seu blog para colocar no artigo que estou escrevendo. Formando em Ciências Sociais e Agora? Até Boa Sorte.
Cara,adorei o post.
Todos dizem que é uma profissão fácil,todos confundem com serviço social e dizem que não diferença,enfim sempre tem os ignorantes.
Mas eu acho uma profissão lindíssima,to louca pra iniciar o curso embora muitas pessoas falarem que o curso não é pra mim porque sou pobre