Virginiano, só podia. Virginiano desassossegado. Ansiado. Com aquela sede de felicidade causada pelas coisas pequenas que só os virginianos têm. Nosso amado Caio faria 60 anos hoje se estivesse vivo. Seria um senhor serelepe e divertido. Nem consigo imaginar o Caio na velhice: quais seriam suas indagações? O que pensaria sobre o amor, meu Deus? A primeira vez que soube da existência dele, devia ter uns 7 anos e peguei na biblioteca de casa um livrinho com uma capa bonitinha, chamado “Morangos Mofados“, o qual minha querida avó prontamente arrancou das minhas mãos dizendo que não era coisa para criança pequena. Bastou pra atiçar minha curiosidade forever. Mais adulta, comprei todos os livros dele que achei,alguns ganhei de presente. Quando fui a Londres, em certos lugares que visitava só conseguir pensar “Caio esteve aqui!”. Tem alguma coisa nele que age sobre mim como uma força muito poderosa.
Me entusiasmo demais quando leio algo que vem direto do coração, da alma, da carne, sei lá de onde, mas que não usa máscara, disfarce,fantasia. É por isso que os livros de correspondência me atraem tanto. Quando ganhei o “Caio Fernando Abreu Cartas“, do Ítalo Moriconi, morri e fui pro céu. E, a cada releitura, descubro mais algum tesouro, mais algum trecho. É quase um oráculo – se estou triste, abro numa página qualquer e tento retirar dela uma mensagem. E as mensagens estão sempre ali.
Esse post é uma homenagem ao autor que mais tocou meu coração. Divido com vocês alguns trechos que me comovem demais.
“A vida é agora, aprende! O pó se acumula todos os dias sobre as emoções!”
“Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida me enfia goela abaixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar.”
“Sempre há alguma coisa que falta. Guarde isso sem dor. Embora, em segredo,doa.”
“Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguirá alcançá-la.”
“Melhor levar para o lado do riso do que para o stadenervos, certo?”
“O dinheiro não importa. Eu quero é me sentir feliz, mesmo pobre.”
“Cada vez mais gosto da luz, cada vez acho a alegria, o prazer, mais importantes. Tudo na trilha de descobertas tão simples, tão fundamentalmente leves.”
“Será que à medida que você vai vivendo, andando,viajando, vai ficando cada vez mais estrangeiro? Deve haver um porto.”
“A perspectiva de fazer 26 anos em setembro me assusta: de repente já estou no fim dos 20 e não tenho nada do que as pessoas costumam ter nessa idade. Tenho planos, claro (todo mundo tem). Mas objetivamente estou sem nada aqui à minha frente. O momento futuro é uma incógnita absoluta. Eu não posso pensar ‘não, daqui a um ano eu vou pro campo ou eu caso ou eu me formou ou eu vou à Europa’. Eu não sei. Fico esperando que pinte alguma coisa, naturalmente. E essa falta de ação me esmaga um pouco.”
Sweeties, dividam comigo seus trechos favoritos e histórias pessoas que tenham a ver com o Caio. Vou amar.














aaaah, amei esse post, nossa! ja tinha curiosidade de conhecê-lo pq vc tinha falado, agora ao ler mais sobre ele e ver os trechos de frases.. nossaaa, paulinha! fantástico! vou comprar assim que der!
beijoss
Na minha adolescencia li muito caio… ah muito tempo não pensava nele… hora de reler caio….
obrigado por me lembrar dele
Me identifiquei ABSURDAMENTE, nao sei nem o que falar! Quase me arrepiei quando li o terceiro e o quarto trechos! acho que se eu ler os livros vai me dar aquela agonia quando vc se identifica muito, de querer chegar no autor e falar que ele traduziu exatamente o que passa pelas nossas mentes…
Cara fantástico!
Preciso me concentrar muito nisso: “Melhor levar para o lado do riso do que para o stadenervos, certo?”
Amei!
ahhh eu nem preciso dizer que como fã frenética dele, adorei! realmente eu não consigo imaginá-lo na velhice e não sei se ele a suportaria, pois era um inconformado…um dos meus trechos preferidos do ” morangos mofados” ( devidamente grifado!):
” te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em todos de novo, que leve para longe da minha boca esse gosto podre de fracasso, de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando”
e parabéns para o caio, aonde quer que ele esteja.
Lindo demais, realmente ele é um autor que mexe c/ tudo e mais um pouco na gente, eu tenho essa relação que vc. têm c/ o Caio c/ a Clarice Lispector, têm coisas que ela escreveu que mexem tanto comigo tenho a sensação estranha de já tê-la conhecido! meio loco né? rs
E por falar no Caio outro dia um amigo comentou que a Grace Gianoukas, com quem ele trabalhou na Terça Insana, morou c/ o Caio um tempo qdo. estava no Sul, ela disse p/ ele que o Caio era uma pessoa muito especial mesmo!
bjinho
lindo lindo lindo
sp, 12 ago 1987
Querida mãe, querido pai,
Não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos – quase 40 – anos. Devo estar acostumado.
Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês – que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio – que é tão ou mais delicado.
Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida – como quem olha de uma janela – mas não consegue vivê-la.
Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco – todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado – nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.
Amo vocês, seu filho,
Caio
O Caio faz parte da minha vida…..
assustadoramente!
essa carta me toca. tudo dele me toca.
ainda bem que ele existiu pq me vejo traduzida em muitas letras perdidas…..
“Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente”
C F A
“E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo. No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural ” C F A
“Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que me leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso”
C F A
“Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas.
Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros.
De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo.”
C.F.A.
Parabéns…tanto tempo depois leio este seu post e choro de saudades do Caio…
“Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”,feito Pessoa.”
(CFA)
Conheci o Caio em São Paulo em 1988. Já tinha lido alguma coisa dele e como eu escrevia também, liguei pra revista AZ, a qual ele trabalhava e ele me atendeu, me convidou pra jantar e ficamos, acho, amigos. Digo acho porque, apesar de frequentar seu apartamento (não amiúde, mas algumas vezes), estava descobrindo aquele gaucho como eu, que tinha certos mistérios e enigmas, que conhecia muita gente, mas que ainda era desconhecido. Embora ele se dissesse solitário, vivia a noite de Sampa perigosamente, livremente, desavisadamente intencional, e isso me preocupava. Eu tinha perdido um amigo (Leonardo) e ele estava perdendo um também (Cazuza) e suas andanças pelas noites não poderiam dar bons frutos. Enfim, Caio era isso, meio louco, meio criança, muito talento. Me dizia que ensaiava sozinho na sala os diálogos e as situações (como no conto A Dama da Noite). Queria dizer isso, guardo Caio no melhor canto do meu coração, apesar de não ter tido tempo de conhece-lo o suficiente, mas quem teve?
“Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”,feito Pessoa.”
(CFA)
Nunca compreendi tao bem o que o Caio expressou. Estou no Interior da Europa, vivendo “como um danado” literalmente.